Fortalezas marítimas da Costa Sudoeste

António Martins Quaresma

A maioria das fortificações marítimas da Costa Sudoeste de Portugal (concelhos de Sines, Odemira, Aljezur e Vila do Bispo) foi edificada na época moderna (séculos XVI-XVIII), no quadro de forte assédio corsário a populações ribeirinhas, navios e armações de pesca.

A pirataria e o corso são antigos na história do mar. No último terço do século XVI, com o fim da guerra entre potências no Mediterrâneo, emergiu uma nova fase do corso, através de “empresários independentes”, provenientes das “repúblicas corsárias” muçulmanas do Norte de África. Esta actividade corsária não pretendeu mudar o mapa dos domínios das partes envolvidas na contenda; apenas manter o confronto, que significava, ao mesmo tempo, uma forma de ganhar a vida. As populações do Magrebe, arredadas do grande comércio que se desenvolvia à escala mundial, tinham no corso uma forma de sobreviver a uma crise que o tempo inexoravelmente agravava. O roubo e o rapto de pessoas destinadas aos mercados de escravos das cidades do Norte de África, ou a serem resgatadas, era o principal objectivo.

A este persistente fenómeno, juntava-se o corso proveniente do Norte da Europa, que, no século XVI, assumiu também contornos ideológicos, com a tensão entre a Reforma e a Contra-Reforma. Quando a guerra se acendia, como aconteceu, por exemplo, durante o conflito entre Espanha e Inglaterra, de 1585 a 1604, o perigo era acrescido.

A fortificação da Costa Sudoeste é geralmente constituída por pequenas edificações, com escasso armamento e reduzidas guarnições, de acordo com o tipo e a medida da ameaça, complementadas por um sistema de vigias fixas e de rondas posto em prática nos meses de Verão. Apenas em Sagres, com a sua imponente fortaleza, esta escala é ultrapassada. Geralmente erguidas em arribas costeiras, a cotas elevadas, a sua artilharia ficava demasiadamente alta, não lhe sendo possível fazer tiro rasante, mais eficaz.

Obedece a uma tipologia comum, apesar das diferenças, por vezes grandes, entre elas: trata-se de construções edificadas numa altura em que as armas de fogo se tinham difundido, muitas delas com os característicos baluartes, mas frequentemente sem muitos dos elementos do programa da fortificação moderna e nunca com as complexas obras exteriores que vemos sobretudo em praças da fronteira terrestre. Só o castelo de Sines apresenta muros ainda com feição gótica.

Boa parte da fortificação do Algarve destinava-se particularmente a proteger as armações de pesca, especialmente do atum, ditas almadravas, economicamente muito relevantes, em que a própria Coroa tinha interesse, desde logo pelos bastos direitos régios que produziam. Na Primavera, quando os cardumes se dirigiam ao Mediterrâneo para a desova, as armações destinadas à sua captura eram instaladas nos locais apropriados; com elas vinham pescadores e suas famílias, marinheiros das barcas e dos caravelões para recolha e transporte do pescado, empregados, feitores, escrivães, cobradores dos direitos reais, que chegavam a formar autênticas povoações de cabanas, à beira-mar.

Além disso, estas fortificações operavam em articulação, para cobrir a maior parte da linha de costa, ainda que com insuficiências. Em termos de organização, operacional e logística, os pequenos fortes dependiam das Praças (no caso da parte algarvia, Sagres e Lagos), por sua vez inseridas em províncias militares. O Algarve, que tinha uma administração militarizada, foi provido com governador e capitão-general desde 1573; as restantes províncias passaram a ter Governos das Armas, em 1640, com seus governadores. Os fortes da costa alentejana, após uma fase de praças autónomas, pertenceram ao Governo das Armas do Alentejo, passando depois para o da Estremadura.

No século XIX, perante o fim da actividade corsária e a evolução das formas de fazer a guerra, a fortificação do litoral foi desactivada. No entanto, algumas funções, como a da vigilância da costa para impedir o contrabando, ainda lhes foram pedidas. O destino de cada um dos edifícios foi diverso, desde o abandono completo até à reutilização pública ou privada. Se alguns deles beneficiaram do interesse pelo património histórico, nas diversas fases e conceitos que informaram esse interesse, outros, considerados, implícita ou explicitamente, pouco interessantes, sofreram um ruinoso abandono.

Existem muitos desenhos, de diversas datas, referentes às fortificações marítimas do Sudoeste Português. Arquivos, como a Biblioteca Nacional de Portugal, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, o Arquivo Histórico Militar, o do Exército Português-Direcção de Infra-Estruturas, o Instituto Geográfico Português, a Biblioteca Pública de Évora, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro ou a Real Academia de la Historia, de Madrid, de autores como Filipe Terzi, Leonardo Turriano, Alexandre Massai, João Rodrigues Mouro, D. Diogo de Pardo Osório, João Tomás Correia, Mateus do Couto (sobrinho), Francisco Lobo Cardenal, Romão José do Rego, José Sande de Vasconcelos, João Gabriel de Chermont, Diogo Correia da Mota, entre outros, que constituem, por si, um património valiosíssimo, por vezes o único que resta depois da ruína e do desaparecimento dos elementos materiais construídos que lhes correspondem.

Bibliografia sumária

ALMEIDA, J. de (1948) - Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, 3.

BELHAMISSI, M. (1996) - Marine et Marins d’Alger (1518-1830). T. 2. Alger: Bibliothèque Nationale d’Algerie, (reedição de 1996).

BENNASSAR, B.  & BENNASSAR, L. (1989) - Les Chrétiens d’Allah. L’histoire extraordinaire des renégats, XVI-XVII siècles. Paris: Perrin.

BRAGA, I. M. R. M. D. (1998) - Entre a Cristandade e o Islão (séculos XV-XVII). Cativos e Renegados nas Franjas de duas Sociedades em Confronto. Ceuta: Instituto de Estudios Ceutis.

BRAUDEL, F. (1995) - O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II, 2 vol., 2.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

CONDE, M. A.; HENRIQUES, M. V. & GUIOMAR, N. G. (2011) - A costa algarvia três séculos depois - O olhar entre a Geografia e a História. In IV Simpósio de Cartografia Histórica, Porto, 9-12 de Novembro de 2011.

URL: http://eventos.letras.up.pt/ivslbch/comunicacoes/104.pdf

COUTINHO, V. (coord.) (2001) - Dinâmica Defensiva da Costa do Algarve. Do período islâmico ao século XVIII. Portimão: I.C.I.A..

GUEDES, L. da Costa (1988) - Aspectos do Reino de Algarve nos Séculos XVI e XVII, A Descripção de Alexandre Massaii (1621). Lisboa: Arquivo Histórico Militar.

GUEDES, L. da Costa (1989) - Aspectos do Reino de Portugal nos Séculos XVI e XVII, A Descripção de Alexandre Massaii (1621) (II Tratado). Lisboa: Arquivo Histórico Militar.

COUTINHO, V. (coord.) (2001) - Dinâmica Defensiva da Costa do Algarve. Do período islâmico ao século XVIII. Portimão: I.C.I.A..

MAGALHÃES, J. Romero (1993) - O Algarve Económico 1600-1773. Lisboa: Editorial Estampa.

MAGALHÃES, N. (2008) - Algarve. Castelos, cercas e fortalezas. Faro: Letras Várias.

MOREIRA, R. (1986) - Arquitectura Militar. In V. SERRÃO (dir), História da Arte em Portugal. O Maneirismo, 7. Lisboa: Publicações Alfa, p. 137-152.

MOREIRA, R. (1986) - Do Rigor Teórico à Urgência Prática: A Arquitectura Militar. In C. MOURA (dir.), História da Arte em Portugal. O Limiar do Barroco, 8. Lisboa: Publicações Alfa, p. 67-86.

Abreviaturas:

AHM – Arquivo Histórico Militar

ANTT – Arquivo Nacional da Torre do Tombo

BNP – Biblioteca Nacional de Portugal

CCEN – Centro Cultural Emmerico Nunes, Sines

GEAEM/DIE – Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar/Direção de Infra-Estruturas do Exército

IGP – Instituto Geográfico Português

MC – Museu da Cidade, Lisboa

RAH – Real Academia de la História, Madrid

Castelo de Sines

Localização: Distrito de Setúbal. Concelho de Sines. Freguesia de Sines. (Figs. 1-14).

Coordenadas: 37º57’18.49’’N; 8º51’59.63’’O

A sul da foz do Sado, a primeira área fortificada é a baía de Sines. Os “diversos insultos” dos corsários “sarracenos” determinaram a edificação do castelo em 1424, cerca de 60 anos após a instituição da vila de Sines. Constituído basicamente por uma alcáçova e um recinto murado, de forma imperfeitamente rectangular, reforçado por dois cubelos do lado de terra e um, circular, do lado do mar, trata-se ainda de uma fortaleza gótica, embora da fase tardia. Aqui terá nascido Vasco da Gama, quando seu pai Estêvão da Gama era alcaide-mor.

A dimensão da área cercada, cerca de 5.000 m2, não permitia albergar mais que um muito pequeno povoado; decerto, a sua construção efectuou-se numa altura em que a povoação crescia e já ocupava uma área demasiadamente grande para ser cingida.Em 1525-32, como vestígio dessa matriz de cercado protector, viviam no seu interior 17 moradores, numa altura em que habitavam a vila 180 moradores; e esse número foi-se reduzindo, até desaparecer.

O perímetro amuralhado poderia servir como último refúgio, em caso de assalto inimigo; mas os seus muros e a sua torre continham uma dimensão de “máquina retórica”, simbólica, de domínio sobre a população. A torre, a alcáçova, residência do alcaide-mor, depois do governador, de bem visível e forte presença, representava o Poder, que se exercia diariamente na vida da vila. Um tratado português do século XVIII (de Manuel Azevedo Fortes) explicava que nas fortificações modernas as cidadelas desempenhavam a função dos castelos medievais: “ter em sujeição e obediência os moradores para que se não revoltem e queiram entregar a Praça”.

Perto do fim do século XV, o alcaide-mor e comendador Estêvão da Gama fez-lhe obras significativas, mas não o “modernizou”, isto é, não o adaptou à guerra com armamento de fogo.Em tempo de D. Manuel, corsários franceses desembarcaram e roubaram os moradores, não bastando o periférico castelo para os dissuadir.

Nas duas últimas décadas do século XVI, com os corsários mouriscos cada mais numerosos, fortes e atrevidos, a situação agudizou-se de tal modo que houve decisão régia de dar 25 soldados ao capitão daquela vila. O engenheiro italiano (de Florença) Alexandre Massai escrevia, poucos anos depois, que dentro do castelo só habitavam três soldados e os dois artilheiros, em habitações pouco cómodas; o resto da guarnição vivia em casas da vila.

Os primeiros projectos de transformar o castelo em verdadeira “máquina de guerra”, com os competentes baluartes, dotados de artilharia, e instalações para a guarnição que lhe garantissem autonomia, devem-se a Alexandre Massai e datam de princípios do século XVII. Mas a adaptação do castelo às novas exigências da pirobalística acabou por ser muito parcial, com a criação de uma plataforma exterior, a um nível mais baixo, destinada a cobrir a baía.

Em 1678, já terminada a Guerra da Restauração, o castelo foi integrado na Praça de Setúbal, do Governo de Armas da Estremadura, separando-se do Governo das Armas do Alentejo (com capital em Elvas); algumas décadas depois, autonomizou-se constituindo a Praça de Sines, de que passaram a depender os fortes da Senhora das Salas, do Pessegueiro e de Vila Nova de Milfontes.

Por meados de Setecentos, Sines tinha uma guarnição de 52 homens, em que se incluíam os artilheiros, sob o comando do governador; em 1781, o engenheiro Chermont escrevia que mais de metade destes “pés de castelo” estava incapaz para o serviço, devido à idade e a doença. A este corpo profissional, juntavam-se os auxiliares e as ordenanças, milícias de recrutamento e comando local, que faziam serviço no Verão, quando o perigo dos corsários se acentuava.

As deficiências em termos operacionais aparecem regularmente na documentação: falta de aprestos e munições, como em 1762; peças de artilharia em mau estado, como em 1781. No entanto, a residência do governador foi objecto de obras, que incluíram decoração de tectos, pintados com motivos bélicos e da mitologia clássica, recentemente restaurados.

A existência de uma bem visível estrutura militar, de uma guarnição que vivia entre a restante população, da presença do oficialato, em particular da figura do governador, e o próprio envolvimento dos moradores nas acções defensivas, como as vigias da costa, amoldaram um inegável carácter castrense a esta vila. No entanto, tinha-se iniciado a perda de importância militar da Praça de Sines.

Aquando das invasões francesas ainda foi ocupado por um destacamento inimigo, aprisionado logo que estalou a revolta em Portugal.Em 1813, Portugal e Argel assinaram um tratado de paz que acabou por debelar o risco dos corsários argelinos nas costas portuguesas. Os fortes da Praça de Sines passaram a ser guarnecidos por uma companhia de Veteranos, a 5.ª Companhia de Veteranos da Estremadura, ou Companhia de Veteranos de Sines, formada nessa data.Os Veteranos eram um corpo de tropa constituído por soldados idosos e incapazes para o serviço activo.

Em 1821, foi determinado que as fortificações do litoral alentejano (Sines, Pessegueiro e Milfontes) servissem de aquartelamentos de um destacamento do Batalhão de Caçadores n.º 2, a que fora cometida a missão de policiamento do contrabando e de salteadores, na área de Sines, Santiago do Cacém e Vila Nova de Milfontes. No mesmo ano, o governador da Praça queixava-se de que os seus Veteranos careciam de fardamento, em especial de capotes com que fizessem face à intempérie nos seus postos de sentinela, mostrando as habituais dificuldades da intendência.

A guerra civil conferiu, em 1832-1834, algum papel militar ao castelo, dado que, enquanto porto de mar, a coordenação das operações liberais na região foi aqui centralizada. Em Setembro de 1833, servia de seu governador o comandante inglês da fragata estacionada no porto; no entanto, menos de um mês depois, apesar da ajuda de alguns ingleses, a vila foi ocupada pelos miguelistas. Terminada a guerra, foi no porto de Sines que, em 1 de Junho de 1834, D. Miguel embarcou para o exílio numa fragata inglesa, protegido da ira do povo de Sines por um destacamento de cavalaria.

Passado o meado do século XIX, o sistema de defesa marítima era posto em causa e repensado. O relatório de inspecção efectuada em 1856 considerava de pouco interesse militar os pontos fortificados que faziam parte da Praça e aconselhava o seu abandono, evitando-se assim encargos desnecessários para a fazenda pública. Sobre o castelo, propunha que fosse “abandonado até uma bem entendida e delineada defesa do País seja adoptada, e mesmo definida a defesa das nossas costas marítimas.”

Depois de desactivado, o castelo teve várias funções: escola, posto da Guarda-Fiscal, serviços municipais, recinto para realização de espectáculos. Hoje, nele estão instalados o Museu Municipal e serviço de café e restaurante, e o espaço aberto no interior da muralha continua a servir para espectáculos musicais.

Fontes e bibliografia

AHM, DIV-1-14-98-25; DIV-1-17-22-44; DIV-1-17-26-38; DIV-4-1-02-15; DIV-1-27-02-188_0004-0005.

GEAEM/DIE, 5848-1-3-5.

FORTES, M. de Azevedo (1993) - O Engenheiro Português. 2 tomos. Lisboa: Direcção da Arma da Engenharia, (1ª ed. 1728-29).

FALCÃO, J. A. (1987) - Memória Paroquial de Sines do Concelho de Sines em 1758. Santiago do Cacém: Real Sociedade Arqueológica Lusitana.

CALLIXTO, C. P. (1989) - Castelo de Sines - um exemplar único. Diário de Notícias, 27 Maio 1989.

CALLIXTO, C. Pereira (1989) - O castelo de Sines após a Restauração. Diário deNotícias, Supl. Sábado Património, 6 de Setembro de 1989.

SOLEDADE, A. (1999) - Sines, Terra de Vasco da Gama. 4ª ed.. Sines: Câmara Municipal.

QUARESMA, A. Martins (2007) - Alexandre Massai. A Escola Italiana de Engenharia Militar no Litoral Alentejano. Sines: Centro Cultural Emmerico Nunes.

QUARESMA, A. Martins (2012) - Sines Medieval e Moderna (Séculos XIV-XVIII). In O concelho de Sines, da fundação à época moderna. Sines: Câmara Municipal, p. 73-124.

Fig. 1 - Sines. Castelo. Desenho de Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripçaõ […], fl. 71, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 2 - Sines. Castelo. Desenho de Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripçaõ […], fl. 71, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 3 - Sines. Castelo. Proposta de abaluartamento, Desenho de Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripçaõ […], fl. 72, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 4 - Sines. Castelo. Proposta de abaluartamento, Desenho de Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripçaõ […], fl. 72, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 5 - Sines. Castelo. Proposta de abaluartamento, Desenho de Alexandre Massai. Fonte: Museu da Cidade, Lisboa, Alexandre Massai, códice de Descripçaõ […], fl. 73, cópia de Centro Cultural Emmerico Nunes, Sines, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 6 - Sines. Castelo. Proposta de abaluartamento, Desenho de Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripçaõ […], fl. 73, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 7 - Sines, no início do séc. XX, com o castelo em primeiro plano. Fonte: Postal ilustrado. Edição Pap. e Typ. de Paulo Guedes & Saraiva, Rua Áurea, 80, Lisboa.


Fig. 8 - Perfil do castelo de Sines, 1781, por João Gabriel de Chermont. Fonte: GEAEM/DIE, 3567_I-3-31-43.


Fig. 9 - Planta do castelo de Sines, 1790, por João Gabriel de Chermont. Fonte: GEAEM/DIE, 3567/I-3-31-43.


Fig. 10 - Sines. Castelo, visto da baía. Foto AMQ.


Fig. 11 - Castelo de Sines. Foto AMQ.


Fig. 12 - Castelo de Sines. Bateria baixa. Foto AMQ.


Fig. 13 - Torre de menagem do castelo de Sines. Foto AMQ.


Fig. 14 - Castelo. Torre de menagem. Janela amainelada. Foto AMQ.

 

Forte de Nossa Senhora das Salas

Localização: Distrito de Setúbal. Concelho de Sines. Freguesia de Sines

Coordenadas: 37º57’04.90’’N; 8º52’34.76’’O

No início do século XVII, o projecto de construção de uma calheta na baía de Sines, da autoria de Leonardo Turriano, com as sequentes alterações de Alexandre Massai, já previa a fortificação desta. Ambos os engenheiros projectaram a instalação de uma bateria sobre o molhe da calheta, para a sua defesa próxima, o que acabou por não se materializar ( Figs. 15 e 16).

Perto do fim do século, terminada a guerra com a Espanha e reorganizado o sistema de fortificação do Litoral Alentejano, a defesa do porto de Sines foi reavaliada, dentro de um critério defensivo mais dinâmico, que informou o período barroco. Assim, em 1680, foi edificado o forte da Senhora das Salas (na realidade, uma simples plataforma para artilharia), sobre a arriba, desenhado pelo engenheiro da Praça de Setúbal João Rodrigues Mouro, para vedar o acesso dos inimigos à baía (Figs. 17-22). Destinava-se a complementar o efeito da artilharia do castelo e a cruzar fogos com uma outra plataforma a edificar no Pontal de Santa Catarina, do lado oposto da baía; esta nunca seria construída, mas no lugar, sobre a rocha, chegou a ser instalada uma bateria de duas peças.

O nome por que é conhecido, forte do Revelim, afigura-se algo dúbio, pois parece remeter para “revelim”, obra exterior de forma angular, nas fortificações abaluartadas, destinada a defender portas e cortinas. Como esta simples plataforma não tinha, neste sentido, qualquer revelim, o nome terá outra origem. Embora o assunto não fique resolvido, notamos que, em finais do século XVIII, um plano de obras para a calheta, nomeadamente uma “Planta da Calheta ou Ribeira de Sines, datada de Março de 1781 e assinada por Diogo Correia da Mota, tem grafada a palavra “Robollim”, identificando o molhe desta.

Bibliografia

QUARESMA, A. M. (2009) - A fortificação da costa de Sines após a Restauração. Forte do Pessegueiro. Sines: Município/Museu Municipal.

Fig. 15 - Projecto de fortificação da calheta de Sines, por Leonardo Turriano. Fonte: ANTT, PT-TT-CCDV-29_m0129, em URL: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=3908671.


Fig. 16 - Planta da Calheta ou Ribeira de Sines, Março de 1781, assinada por Diogo Correia da Mota. Fonte: IGP, CA 346.


Fig. 17 - Plano, perfil e elevação do forte de Nossa Senhora das Salas, 1781, assinada por João Gabriel de Chermont. Fonte: BNP, cc-847-v_0001_t0.


Fig. 18 - Planta e perfil da bateria de Nossa Senhora das Salas [1856]. Fonte: GEAEM/DIE, 5847-1-3-5.


Fig. 19 - Forte de N. Sr.ª da Salas ou do Revelim, com baía de Sines. Foto AMQ.


Fig. 20 - Forte de N. Sr.ª da Salas ou do Revelim, Foto AMQ.


Fig. 21 - Forte de N. Sr.ª da Salas ou do Revelim, com baía de Sines ao fundo. Foto AMQ.


Fig. 22 - Forte de N. Sr.ª da Salas ou do Revelim, com baía de Sines ao fundo. Foto AMQ.

 

Fortes do Pessegueiro

Localização: Distrito de Setúbal. Concelho de Sines. Freguesia de Porto Covo (Figs.23-35).

Coordenadas: Forte da ilha: 37º50’00.59’’N; 8º47’51.19’’O

Coordenadas: Forte da costa: 37º49’42.36’’N; 8º47’27.16’’O

O interesse por algumas vantagens portuárias da ilha do Pessegueiro é antigo, como mostram a sua ocupação na época romana e a própria origem do topónimo. Ela é mencionada pelas fontes escritas, desde a Idade Média: em 1190, o cronista da 3.ª Cruzada, refere Persekere, entre Sines e a foz do Mira.

A fortificação moderna da ilha e da costa do Pessegueiro iniciou-se em finais do século XVI, sob o domínio filipino, quando a Coroa decidiu a construção dum porto oceânico, aproveitando e prolongando o efeito protector da ilha, projecto que acabou por ser abandonado, sem proveito, após uma década de trabalhos. Da tarefa estiveram encarregados os engenheiros italianos Filipe Terzi, inicialmente, e Alexandre Massai, após 1590. Desse período, são bem visíveis, na ponta norte da ilha, os cortes para extracção de pedra, e, presumivelmente da mesma altura, do lado de nascente, uma cisterna e uma rampa de varadouro, talhadas na rocha arenítica.

O pequeno forte, cujas ruínas se observam no interior da ilha, data de 1598 e foi desenhado pelo engenheiro Alexandre Massai; destinava-se a defender a obra e a evitar que os navios inimigos se escudassem com a ilha, impedindo que a artilharia montada na bateria da costa os atingisse. Nunca chegou a ser utilizado, desde logo devido à dificuldade em manter uma guarnição na ilha. De pequenas dimensões, com baluartes nos quatro ângulos, possuía fosso, dos lados norte e poente, e ponte levadiça. Está hoje arruinado, a precisar de obras de consolidação.

Na costa, foi, por esta altura, edificada uma bateria, já no tempo em que Massai estava encarregado dos trabalhos, materialização muito simplificada de um projecto de fortificação da autoria do engenheiro Filipe Terzi, primeiro responsável da obra. Sem guarnição e sem armamento e em ruínas, esta bateria testemunhava, na segunda parte do século XVII, os constantes desembarques dos corsários mouriscos, que assolavam a população e a ermida de Nossa Senhora do Queimado. Esta ficou mesmo associada a um “milagre”, em que a sua imagem de Nossa Senhora, em madeira, atirada pelos corsários para um silvado em chamas, permaneceu incólume.

Cerca de 1679, esteve nesta costa o engenheiro D. Diogo Pardo de Osório, que desenhou e relatou as ruínas. Sobre estas foi, finalmente, construído, de raiz, entre 1680 e 1685, o forte hoje existente, destinado a conter em respeito os corsários mouriscos. Coube a responsabilidade da edificação ao engenheiro da Praça de Setúbal João Rodrigues Mouro. De básica planta quadrada, possui dois baluartes, do lado de nascente, para defesa da porta e flanqueamento das cortinas de norte e sul, bem como fosso, com ponte levadiça, e estrada coberta. Foi dotado de uma pequena guarnição de seis homens, saída da guarnição do forte de Milfontes, e de alguma artilharia.

Sofreu avarias com o terramoto de 1755, mas a sua continuada utilização pela Guarda Fiscal ainda em pleno século XX, terá contribuído para a sua conservação. É “imóvel de interesse público”. Recebeu, recentemente, obras de consolidação, mas mantém-se fechado, praticamente sem utilização, apesar da sua potencialidade cultural e turística.

Bibliografia sucinta

DALCHÉ, P. G. (ed.). (2005) - Du Yorkshire a L'Inde. Une «Géographie» Urbaine et Maritime de la Fin du XIIe Siècle (Roger de Howden?). Genève: Droz.

QUARESMA, A. M. (2009) - A fortificação da costa de Sines após a Restauração. Forte do Pessegueiro. Sines: Município/Museu Municipal.

TAVARES DA SILVA, C. &SOARES, J. (1993) -Ilha do Pessegueiro. Porto Romano da Costa Alentejana. Lisboa: Instituto para a Conservação da Natureza.

Fig. 23 - Ilha do Pessegueiro, vista da costa fronteira. Foto AMQ.


Fig. 24 - Ilha do Pessegueiro. Pedreira do século XVI. Foto AMQ.


Fig. 25 - Planta do fortim da ilha do Pessegueiro. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripcaõ […], fl. 65, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 26 - Fortim da ilha do Pessegueiro. Foto AMQ.


Fig. 27 - Fortim da ilha do Pessegueiro. Foto AMQ.


Fig. 28 - Planta da ilha do Pessegueiro com a terra firme, 1693, assinada por João Rodrigues Mouro. Fonte: ANTT, PT-TT-CCDV28_029. URL:  http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=3908670


Fig. 29 - Planta da ilha do Pessegueiro, 1781, assinada por Diogo Correia da Mota. Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal, cc-1802-a. URL: http://purl.pt/3951


Fig. 30 - Forte do Pessegueiro, visto do norte. Foto AMQ.


Fig. 31 - Pedreira, a sul do forte do Pessegueiro. Foto AMQ.


Fig. 32 - Baluarte do forte do Pessegueiro. Foto AMQ.


Fig. 33 - Parte do forte do Pessegueiro, com a ilha ao fundo. Foto AMQ.


Fig. 34 - Forte do Pessegueiro. Interior. Foto AMQ.


Fig. 35 - Forte do Pessegueiro. Interior. Praça baixa. Foto AMQ.

 

Castelo de Milfontes

Localização: Distrito de Beja. Concelho de Odemira. Freguesia de Vila Nova de Milfontes (Figs. 36-44).

Coordenadas: 37º43’22.02’’N; 8º46’58.28’’O

Conhecido por Castelo de Milfontes, trata-se de um forte moderno, cuja invocação inicial a São Clemente só nos nossos dias foi retomada. Construído entre 1599 e 1602, sob desenho e direcção de obra do engenheiro florentino Alexandre Massai, destinava-se a defender a vila e o porto da acção dos corsários, que, nos anos anteriores, haviam atacado repetidamente Vila Nova de Milfontes. Em 1582, o corsário argelino Murad Rais assaltou a vila de surpresa, tendo-a incendiado e levado parte dos habitantes como cativos; em 1597, foram os “hereges”, certamente ingleses, que desembarcaram na desabitada povoação, cometendo depredações e insolências. Massai, que dirigia a obra do Pessegueiro, foi destacado em 1598 para a foz do rio Mira, a fim de fazer os estudos preliminares e dar início à construção do forte, que se pode enquadrar também num programa de fortificação marítima, particularmente no Alentejo e no Algarve, que o poder filipino levou a cabo em Portugal.

Edificado sobre esporão rochoso, na margem direita do rio, a cerca de 1,5 km da embocadura, para onde apontava as baterias, a sua localização buscou as máximas possibilidades defensivas naturais, de modo a cobrir eficazmente a entrada do porto. Com duas praças desniveladas, o forte apresentava, para a defesa próxima, um fosso, dos lados de norte e nascente, atravessado por ponte levadiça que dava acesso à porta, e contraescarpa com estrada coberta. Chegou a ser complementado por um fortim, hoje desaparecido, construído mais próximo da barra, em sítio exacto não determinado.

Por volta de 1621, estava no comando Diogo Fernandes, homem abonado que, não sendo soldado profissional, se mostrava decidido e destro. Apesar de residir a meia légua da vila, na herdade do Canal, comparecia sempre com rapidez quando havia rebate, pois possuía cavalo. A guarnição resumia-se a um único soldado, o artilheiro, acontecendo que, quando este tinha de se deslocar a qualquer lugar, o forte ficava completamente abandonado. Apesar disso, ele representou o primeiro passo para um sistema baseado na profissionalização. O forte estava então armado com cinco peças de artilharia e alguns mosquetes e arcabuzes, mas o abastecimento de pólvora era irregular e frequentemente o paiol encontrava-se vazio.

Após a Restauração, a capitania profissionalizou-se, mas, nas ausências do titular, a gente da terra continuava obrigada a assumi-la, através do oficialato das ordenanças. Em 1641, encontramos o primeiro capitão de nomeação régia, Jerónimo da Cunha de Vasconcelos. No entanto, terminada a Guerra da Restauração o forte encontrava-se em miseráveis condições, falho de todos os meios de defesa, sem governador, sem soldados nem artilheiros, desprovido de munições e de todos os mais apetrechos de guerra, arruinado em grande parte, principalmente no muro da praça baixa – o que se devia, em boa parte ao facto de pertencer ao Governo das Armas do Alentejo, cuja sede ficava longe, em Elvas.

A partir de 1678 passou a depender a Praça de Setúbal, e a situação melhorou: foram-lhe feitas obras, sob a direcção do engenheiro João Rodrigues Mouro, e foi dotado de uma guarnição de 25 soldados. Um projecto, do engenheiro D. Diogo Pardo de Osório, aproximadamente dessa altura, previu a edificação de uma plataforma artilhada, na Ponta da Vigia, junto ao Canal, para vigilância e defesa deste ponto, onde os corsários vinham fazer aguada, mas apenas foi lá instalado um ponto de vigilância com uma peça de artilharia. Na primeira metade do século XVIII, com a criação da Praça de Sines, o forte de Milfontes foi agregado a esta.

Entretanto, o corso norte africano tendia para o fim, embora as vicissitudes políticas e militares trouxessem a insegurança aos mares portugueses: em 1797, por exemplo, havendo guerra com a França, navios portugueses davam caça, com sucesso, a um corsário francês que actuava junto a Milfontes e tinha apresado três iates portugueses, carregados de sal. No entanto, o forte não desempenhava qualquer papel nestas acções.

Após a desactivação, o Estado vendeu-o em hasta pública, em 1903, mas manteve-se abandonado até 1939, altura em que, de novo transaccionado, recebeu obras e foi convertido em habitação e unidade hoteleira. As sucessivas obras realizadas no século XX introduziram algumas alterações na arquitectura do monumento, adaptadas às novas funções, mas nem sempre de forma feliz. Hoje, tem apenas função habitacional temporária. Está classificado de “imóvel de interesse público”.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1979) - As fortificações marítimas da Praça de Sines. O forte de São Clemente de Vila Nova de Mil Fontes. O Dia, de 6 de Setembro de 1979, p. 9 e 23.

CALLIXTO, C. P. (1986) - A propósito de uma comemoração concelhia. O forte de Vila Nova de Milfontes. O Dia, suplemento O Dia Ilustrado, II, de 17 de Agosto de 1986.

SOARES, J. P. C. (1869) - Additamentos aos Quadros Navaes e Epopea Naval Portugueza. T. 4. Lisboa: Imprensa Nacional, p. 127-128.

QUARESMA, A. M. (2003) - Vila Nova de Milfontes. História. Milfontes: Junta de Freguesia, p. 149-179.

Fig. 36 - Planta do forte de Milfontes, 1621, de Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripcaõ […], fl. 58, cópia de CCEN, fotografia José Manuel Costa Alves.


Fig. 37 - Planta do forte de Milfontes, 1693, assinada por João Rodrigues Mouro. Fonte: PT-TT-CCDV-28_m0007. URL: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=3908670.


Fig. 38 - Planta do forte de Milfontes, por João Tomás Correia [17--]. Fonte: BNP, da-7-a. URL: http://purl.pt/12158.


Fig. 39 - Planta e perfil do forte de Milfontes, ca 1790, por João Gabriel de Chermont. Fonte: GEAEM/DIE,


Fig. 40 - Forte de Milfontes, visto de poente. Foto AMQ.


Fig. 41 - Forte e vila de Milfontes, meados do séc. XX. Cedida por comandante Joaquim Cabeçadas Silva Reis


Fig. 42 - Forte de Milfontes. Década de 1960. Cedida por D. Margarida de Castro e Almeida.


Fig. 43 - Forte de Milfontes, visto de sul. Década de 1960. Cedida por D. Margarida de Castro e Almeida.


Fig. 44 - Forte de Milfontes. Pedra de armas sobre a porta. Foto AMQ.

 

Forte da Arrifana

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Aljezur. Freguesia de Aljezur. Lugar de Arrifana (Figs. 45-50).

Coordenadas: 37º17’47.70’’N; 8º52’27.31’’O

No concelho de Aljezur, o Forte da Arrifana é o primeiro da costa ocidental do Algarve, para quem vem da costa alentejana. Sobre uma pronunciada ponta, que bordeja pelo norte a baía da Arrifana, defendia contra as depredações corsárias uma armação de pesca que ali se instalava anualmente. Foi edificado em 1635, não obstante parecer negativo do governador e capitão-mor do Algarve, D. Gonçalo Coutinho, que considerava a armação sem grande interesse económico, sobretudo pela distância a que ficava dos centros consumidores de pescado e pelos riscos do seu transporte devido à presença de corsário, bem como à dificuldade e ao custo em manter uma fortificação numa costa tão isolada. Em 1670, após abandono de algumas dezenas de anos, o forte foi reedificado por ordem do Conde de Vale de Reis, governador e capitão general do Algarve, que o mandou artilhar e dotar de guarnição.

Compunha-se basicamente de uma cortina, com corpo da guarda abobadado, que vedava o acesso do lado da terra ao promontório. Sobre este, a modo de uma plataforma, instalava-se a artilharia apontada sobre um parapeito para o mar. As peças ficavam, contudo, excessivamente altas, para uma defesa eficaz da enseada, mas podiam ser úteis para dificultar a aproximação dos inimigos. Adossados à cortina, no interior, encontravam-se os quartéis.

Entretanto, a ponta de terra onde estava edificado foi aluindo, devido á erosão, e, em particular, aquando do terramoto de 1755. Em 1760 foi reedificado, mas, quatro anos depois, a estreita passagem que fazia a comunicação entre os quartéis e a bateria desmoronou-se, de modo que, tendo antes cerca de um metro de largura, ficou em alguns sítios com menos de 20 cm, o que constituía um perigo para a guarnição dada a altura da falésia. Por finais do século XVIII, estava armado com duas bocas de fogo e guarnecido por seis soldados comandados por um cabo.

A partir de inícios do século XIX, os relatórios das inspecções militares informam que nada mais restava do que as ruínas da cortina de entrada, dos quartéis e do paiol, que era coberto por abóbada; os próprios parapeitos que bordavam a rocha caído ao mar.

Em 1940, a Direcção Geral do Património do Estado considerava as “desmanteladas ruínas”, “sem o mais leve interesse, quer histórico quer artístico”. Recentemente foi objecto de intervenção arqueológica e de trabalho de consolidação da muralha, no âmbito do programa Polis Litoral Sudoeste, com vista a melhorar o espaço enquanto miradouro. O trabalho incidiu sobre as antigas instalações (quartéis, corpo da guarda, paiol) e estrutura defensiva, revelando alguns aspectos interessantes. O acesso à porta, situada a meio da cortina, fazia-se por ponte dormente e ponte levadiça, sobre um fosso. Encimando a porta, uma pedra de armas, datada de 1670, entretanto recolhida no Museu de Lagos, foi, agora, substituída por uma cópia. O espólio recolhido compõe-se, nomeadamente, de fragmentos de loiça de mesa e de cozinha, assim como de pederneiras pertencentes às fecharias das armas de fogo individuais.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1983) - As fortificações dependentes da Praça de Sagres. O Forte de Arrifana. Revista de Marinha, 129, Setembro de 1983, p. 32-35.

MÓRAN, E.; GONÇALVES, A. & MATOS, C. (2011) - Trabalhos Arqueológicos na Fortaleza da Arrifana em 2011. Al-Rihana. Revista Cultural do Município de Aljezur, 6, p. 165-203.

Fig. 45 - Desenho com as plantas dos fortes da Arrifana e da Carrapateira, 1754, assinado por Francisco Lobo Cardenal. Fonte: ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0005. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960


Fig. 46 - Planta do forte da Arrifana [1788], por José Sande de Vasconcelos. GEAEM/DIE, 291-1-8A-96


Fig. 47 - Cortina do forte da Arrifana, na década de 1980. Foto Mário Primo.


Fig. 48 - Pormenor do forte da Arrifana, na década de 1980. Foto AMQ.


Fig. 49 - A cortina, após as obras recentes. Foto AMQ.


Fig. 50 - Porta, com réplica da pedra de armas. Foto AMQ.

 

Forte da Carrapateira

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Aljezur. Freguesia de Bordeira. Lugar de Carrapateira (Figs. 45, 51-58).

Coordenadas: 37º11’04.54’’N; 8º53’42.86’’O

Foi edificado sobre uma pequena elevação, a cerca de 1,5 km da praia e não sobre a arriba marítima, como encontramos nos restantes casos das fortificações algarvias nos concelhos de Aljezur e Vila do Bispo. Na realidade, a sua função era também algo diferente: defender a povoação da Carrapateira, que, ficando embora a alguma distância do mar, conheceu diversos ataques dos corsários que desembarcavam nas praias próximas e vinham saquear a povoação e tentar capturar habitantes.

Face às repetidas incursões e roubos que a povoação sofreu, os moradores pediram o auxílio régio: em 1673, sendo Capitão General e Governador do Algarve D. Nuno da Cunha de Ataíde, Conde de Pontével, foi construído o pequeno forte, em volta da igreja manuelina, o principal edifício da povoação, como se lê na inscrição epigráfica embutida na parede do templo.

Forte a estrela”, de básica planta quadrada, com ângulos salientes e reentrantes, que permitiam algum flanqueamento, tratava-se de um tipo de estrutura sobretudo usado na “campanha”, isto é, em fortificações mais ou menos temporárias por exércitos em operações fora das praças, e é o único com esta forma em todo o Sudoeste. Dotado de seis peças de artilharia e onze homens de guarnição, o fortezinho terminou com as incursões corsárias contra a povoação. Em 1751, aliviada a pressão corsária, o forte da Carrapateira tinha apenas duas peças e a guarnição limitava-se a três homens.

Entretanto, para evitar desembarques inimigos na praia, uma vez que a artilharia do forte não o podia fazer, foi instalada, em posição mais adequada, uma bateria provisória; igualmente o foi no Vale de Figueira, uma légua a norte, com uma peça montada. Estas pequenas baterias terão sido assentadas tardiamente, não para bater os corsários mouriscos, mas evitar desembarques liberais, ao tempo da guerra civil (1832-1834).

Durante a guerrilha miguelista do Remexido, foi ocupado por um destacamento de tropa, integrando uma rede de posições fortificadas para fazer face à acção dos guerrilheiros. Já então em mau estado, nos anos seguintes foi-se arruinando ainda mais, até ao final e total abandono. Os seus arruinados muros foram reerguidos há algumas décadas, conforme hoje se vê, nada restando, contudo, das antigas baterias, quartéis e paiol.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1983) - As fortificações dependentes da praça de Sagres, O Forte da Carrapateira. Revista de Marinha, 130, Outubro de 1983, p. 38-40.

Fig. 51 - Planta do forte da Carrapateira [1788], por José Sande de Vasconcelos. Fonte: GEAEM/DIE, 292-1-8A-96.


Fig. 52 - Carrapateira, vista de poente. Foto AMQ.


Fig. 53 - Forte da Carrapateira, visto de poente. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 54 - Vista para o mar, do forte da Carrapateira, Foto AMQ.


Fig. 55 - Vista para o mar, do forte da Carrapateira. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 56 - Inscrição na parede lateral da igreja da Carrapateira. Foto AMQ.


Fig. 57 - Obras de reconstrução do forte da Carrapateira, ca. 1990. Foto AMQ.


Fig. 58 - Aspecto actual do muro. Foto AMQ.

 

Forte de São Vicente

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Sagres.

Coordenadas: 37º01’23.55´´N; 8º59’45.81’’O

A necessidade de defender a área do Cabo de São Vicente/ Ponta de Sagres foi sentida desde cedo, graças à sua posição geográfica e à importante função das suas baías nas linhas da navegação à vela, bem como na actividade pesqueira. Para a própria Vila do Bispo, então Aldeia do Bispo, foi elaborado um projecto de fortificação abaluartada, na segunda metade do século XVI, ao tempo de D. Sebastião (Fig. 59), altura em que a fortificação marítima do Reino foi especialmente fomentada. Mantinha uma torre de vigia, a Torre d’Aspa, situada sobre a alta costa a norte de São Vicente, que, por meados do século XVIII, já com outras funções, estava arruinada.

O cabo de São Vicente/Sagres possui antiga carga religiosa, própria do seu carácter de finis terra: na época islâmica, não longe do cabo, teria existido um santuário moçárabe, a Igreja do Corvo, cuja localização precisa é ainda, contudo, objecto de discussão. Ao Cabo está associada a lenda de São Vicente, cujo corpo ali teria sido sepultado, sendo as suas relíquias mais tarde transportadas para Lisboa. Na Idade Média tardia, aqui se achava uma ermida dedicada ao santo, a que acorriam devotos.

A mais antiga notícia conhecida sobre a fortificação do Cabo de São Vicente é do início do século XVI, quando D. Fernando Coutinho, Bispo de Silves, mandou fazer um convento, ocupado por frades franciscanos, um “castelo” e um farol, elementos que remetem para a sacralidade do lugar, para a periculosidade representada sobretudo pelos corsários e para a necessidade de sinalização luminosa destinada à navegação. Ao tempo de D. João III, a obra defensiva foi melhorada, inclusive com uma muralha de mar a mar (Figs. 60-67).

A passagem regular de barcos corsários norte-africanos constituía factor de insegurança para os habitantes, para os barcos surtos na baía e para a armação de pesca que próximo se instalava, mas, no convento/castelo, os piores danos foram praticados, em 1587, pelos ingleses, que atacaram e queimaram o convento e o aposento ali mandado fazer por D. Sebastião anos antes. Em 1588, o rei Filipe II enviou o engenheiro Filipe Terzi para recuperar a fortificação, trabalho em que se ocupou intermitentemente. Quanto ao convento, ficou reparado em 1606.

O muro da fortificação era ainda “ao antigo”, e, alguns anos depois, Alexandre Massai fez projecto de modernização, com um baluarte, fosso, ponte levadiça e corpo da guarda coberto de abóbada. Além disso, este engenheiro considerava que a guarnição existente, de um soldado e um artilheiro, era muito escassa, bem como escasso era o armamento; propunha que fosse guarnecido com seis soldados e dois artilheiros e dotado de mais e melhor armamento. Em 1621, segundo o mesmo Massai, ainda as obras não estavam terminadas, nem as restantes necessidades satisfeitas. Por volta de 1653/1654, durante a Guerra da Restauração, terá beneficiado de reparações. Conforme as plantas elaboradas em 1754 e em 1788, aliás com diferenças entre elas, as soluções modernas tiveram tímida aplicação.

Em consequência da legislação liberal, o convento foi extinto na primeira metade do século XIX e o edifício secularizado. Em 1840, o forte estava abandonado e os muros acusavam ruína, sendo considerado de diminuta importância militar. Apresentava, em resultado de modificações entretanto feitas, uma muralha, com um extenso ramal na parte norte, onde havia um pequeno fosso. Ao centro, uma torre, com algumas seteiras baixas para flanqueamento dos dois lanços laterais da muralha. Do lado de leste, abria-se a porta, em frente da qual um parapeito com banqueta, bordando o terreno até à parte mais escarpada. Ao sudoeste, tinha uma pequena bateria, a barbeta, mais moderna, capaz para duas bocas de fogo, mas desartilhada.

Em 1846, foi ali edificado um farol, reequipado em 1904 com um potente aparelho luminoso. Foram-lhe feitas obras, aquando das comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, que lhe conferiram o aspecto actual. Na componente fortificada distingue-se a cortina, a que se adossa a torre de planta quadrangular, com alambor. A porta, encimada pelas armas de Portugal, está colocada lateralmente; mais adiante, do lado de leste, uma plataforma de artilharia, de feição moderna, com parapeito, cordão e escarpa. O conjunto é “imóvel de interesse público”, e, além da função de dar maior segurança à navegação, tem hoje aproveitamento turístico.

Fontes e bibliografia sucinta

ANTT, PT-TT-MPRQ-33-18_m79-m83, Memórias Paroquiais de Sagres. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4241560.

CALLIXTO, C. P. (1983) - As fortificações dependentes da praça de Sagres. O Convento de S. Vicente. Revista de Marinha, 132, Dezembro de 1983, p. 41-42.

CALLIXTO, C. P. (1984) - As fortificações dependentes da praça de Sagres. A defesa do Convento de S. Vicente. Revista de Marinha, 133, Janeiro de 1984, p. 40-41.

CALLIXTO, C. P. (1984) - As fortificações dependentes da Praça de Sagres. O cabo de S. Vicente na época do ataque inglês. Revista de Marinha, 134, Fevereiro de 1984, p. 31-33.

CALLIXTO, C. P. (1984) - As fortificações dependentes da Praça de Sagres. O Forte e o Convento do cabo de S. Vicente poucos antes da revolução restauradora. Revista de Marinha, 136, Abril de 1984, p. 40-42.

CALLIXTO, C. P. (1984) - As fortificações dependentes da praça de Sagres. Filipe Terzi e a reconstrução do Convento do Forte do Cabo de S. Vicente. Revista de Marinha, 137, Maio de 1984, p. 43-44.

CALLIXTO, C. P. (1984) - O Forte do C. de S. Vicente no começo do séulo XVIII”. Revista de Marinha, 141, Setembro de 1984, p. 38-39.

CALLIXTO, C. P. (1984) - O forte do Cabo de S. Vicente no final do século XVIII”. Revista de Marinha, 142, Outubro de 1984, p. 17.

CALLIXTO, C. P. (1985) - As fortificações dependentes da Praça de Sagres. A construção do Farol do Cabo de S. Vicente. Revista de Marinha, 145, Janeiro de 1985, p. 41-42.

CALLIXTO, C. P. (1985) - As fortificações dependentes da Praça de Sagres. O novo farol do Cabo de S. Vicente. Revista de Marinha, 146, Fevereiro de 1985.

CALLIXTO, C. P. (1985) - O Cabo de S. Vicente na actualidade. Revista de Marinha, 148, Abril de 1985, p. 35-36.

CALLIXTO, C. P. (1985) - As fortificações dependentes da Praça de Sagres. As projectadas muralhas de Vila do Bispo e a Torre de Aspa”. Revista de Marinha, 149, Maio de 1985, p. 39-40.

GARCIA, J. M. & CUNHA, R. (1990) - Sagres. Vila do Bispo: Câmara Municipal.

CUSTÓDIO, J. (coord.) (2010) - 100 Anos de Património: Memória e Identidade. Portugal 1910-2010. Lisboa: IGESPAR.

NETO, M. J. B. (2001) - Memória, Propaganda e Poder. O Restauro dos Monumentos Nacionais (1929-1960). Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

Fig. 59 - Planta da fortificação projectada para Vila do Bispo, da autoria de Martim Gonçalves da Câmara, por mandado de D. Sebastião. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripcaõ […], fl. 43.


Fig. 60 - Planta do forte de São Vicente. Fonte: ANTT, ANTT, PT-TT-CCDV-29_m0094, em URL: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=3908671.


Fig. 61 - Forte do Cabo de São Vicente [1788], desenhado por José Sande de Vasconcelos. Fonte: BNP, ca-8-r. URL: http://purl.pt/762. Montagem em URL: http://imprompto.blogspot.pt/2008/11/fortalezas-e-baterias-do-algarve-em....


Fig. 62 - Planta do forte de S. Vicente, de Baltazar Azevedo Coutinho (ca. 1798). Fonte: ANTT, PT-TT-CRT-211_m0067. URL: http://digitarq.arquivos.pt/details?id=4499965.


Fig. 63 - Forte de São Vicente, visto do forte de Belixe, com cúpula da capela deste em primeiro plano. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 64 - Forte de São Vicente, visto de nascente. Foto AMQ


Fig. 65 - Forte de São Vicente, vista do interior para o mar, junto a baluarte. Foto AMQ.


Fig. 66 - Porta do forte. Foto AMQ.


Fig. 67 - Farol de São Vicente. Foto Jorge Vilhena.

 

Forte de Belixe ou Beliche

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Sagres (Figs. 68-76).

Coordenadas: 37º01’38.15’’N; 8º58’57.35’’O

Edificado na arriba sobre a baía do mesmo nome, entre São Vicente e Sagres, o forte de Belixe ou de Santo António de Belixe servia especificamente para defender a rendosa armação de pesca, que ali se instalava todos os anos, e para operar em articulação com as fortificações de Sagres e São Vicente. Desconhece-se a data da construção, mas não foi referido pelo cronista João Cascão, aquando da visita de D. Sebastião ao Cabo, em 1573. Porém, em 1587, aquando do ataque de Drake, ele já está assinalado na planta inglesa então desenhada.

Foi reedificado em 1632, sendo Governador do Algarve, D. Luís de Sousa, conforme a inscrição epigráfica sobre a porta, parcialmente picada, na parte que se refere às Armas de Castela. Sobre esta, uma pedra com as Armas de Portugal, de coroa fechada. Uma planta de José Sande Vasconcelos (1788) mostra uma fortificação poligonal, abaluartada do lado de terra, sem fosso, com baterias sobre o mar e com um ramal aparentemente para defender um acesso ao mar e para tolher o passo a possíveis atacantes, impedindo que penetrassem na ponta onde está construído e atacassem o forte por esse lado. A porta acolhia-se num flanco de baluarte. No interior, uma ermida de forma cúbica.

Por meados do século XVIII, estava armado com duas peças de artilharia, e no final do mesmo século a guarnição foi fixada em 12 soldados, comandados por um cabo. Segundo uma inspecção de 1840, a construção dos seus muros era de má qualidade, o que contribuía para a ruína, notando-se também a falta de rampas de acesso aos baluartes. Finalmente, já quase sem valor militar, servia para nas suas arruinadas instalações se abrigarem os pescadores da armação que próximo se montava. Nesse ano, apenas nele habitava um empregado da Companhia de Pescarias do Algarve.

O forte chegou muito arruinado aos nossos dias, mas, com as comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, recebeu nova atenção. Foi classificado “imóvel de interesse público”, em 1957, após o que beneficiou de obras significativas e foi convertido em estabelecimento de hotelaria, no âmbito dos trabalhos para as comemorações henriquinas, efectuados no Cabo pela Direcção Geral dos Edifício e Monumentos Nacionais. A sua pequena capela foi contemplada com um dos retábulos colaterais então apeados na igreja matriz de Vila do Bispo, a que foi feito um pequeno acrescento para se adaptar ao novo espaço.

Em 1963, foi entregue ao SNI, e mais tarde concessionado à ENATUR. Observam-se hoje os muros, com o extenso ramal, a poente, até à falésia. A porta, sobre a qual as citadas pedras de armas, surge defendida por um baluarte, onde se destaca um orelhão, que abrigava o flanco encoberto e sua artilharia, bem como a porta. Orelhões, destinados a proteger as peças que flanqueavam as cortinas, encontram-se também no lado oposto deste baluarte e nos dois meios-baluartes junto à falésia.

Recentemente, por medida de precaução, devido ao perigo de derrocada da falésia, o acesso ao público acabou por ser limitado, encontrando-se hoje geralmente encerrado.

Fontes e bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1985) - O forte de Santo António de Beliche. Revista de Marinha, 152, Agosto de 1985, p. 42-43.

GARCIA, J. M. & CUNHA, R. (1990) - Sagres. Vila do Bispo: Câmara Municipal.

(1992) - Igreja Matriz de Vila do Bispo. Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 107, Março de 1962.

Fig. 68 - Planta do forte de Belixe, 1754, assinada por Francisco Lobo Cardenal. Fonte:  ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0007. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960.


Fig. 69 - Planta do forte de Belixe [1788], por José Sande de Vasconcelos. Fonte: GEAEM/DIE, 294-1-8A-96.


Fig. 70 - Forte de Belixe. Foto AMQ.


Fig. 71 - Forte de Belixe. Foto AMQ.


Fig. 72 - Forte de Belixe. Porta protegida por flanco. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 73 - Pedras de armas sobre a porta. Foto AMQ.


Fig. 74 - Forte de Belixe. Capela. Foto AMQ.


Fig. 75 - Forte de Berlixe. Flanco de baluarte, com orelhão. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 76 - Forte de Belixe. Foto Jorge Vilhena.

 

Fortaleza de Sagres

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Sagres (Figs. 77-93).

Coordenadas: 37º00’02.83’’N; 8º56’53.27’’O

No quadro das fortificações marítimas do Sudoeste português, Sagres merece uma atenção especial, pela sua escala, pela sua função e pela mitografia que lhe está associada.

A Ponta de Sagres possuía interesse estratégico, graças à sua particular posição no extremo sudoeste da Península. Vigiava a navegação entre o Atlântico e o Mediterrâneo, pois a mudança de regime de ventos obrigava a que frequentemente os navios se abrigassem nas suas baías, especialmente os que se dirigiam para a costa oeste. Alexandre Massai escreveu mesmo que a demandavam “embarcações e navios de todas as partes do mundo”, especificando “as frotas das Índias de Castela”, por vezes “as naus da Índia de Portugal” e “galés e armadas de toda a sorte”. A boa qualidade destes ancoradouros extinguia-se naturalmente com os ventos tempestuosos de Inverno, ou com o de levante nos expostos a leste.

O Infante D. Henrique procurou organizar e povoar esta inóspita ponta de terra, e fundou aqui uma nova vila, fortificada, onde morreu em 1460, alegadamente para dar apoio à navegação e aos marinheiros que buscavam o seu abrigo, o que patenteia a intenção de incremento portuário do lugar. Porém, a ambiciosa pretensão do Infante frustrou-se parcialmente pois a terra não tinha condições naturais de sustento de uma população numerosa e sofria da insegurança da sua exposta situação ao corso. Além disso, o Algarve rapidamente cedeu a Lisboa o seu papel central nas viagens marítimas portuguesas.

Por meados do século XVI, a vila estava praticamente despovoada. No período filipino, quando o rei fez da fortaleza “presídio” de espanhóis, os poucos moradores que habitavam no interior da fortificação, saíram desta, para Aldeia do Bispo e Raposeira. A “sede” da freguesia de Sagres acabaria, em termos habitacionais, por ficar reduzida à componente militar, e o povoamento desenvolver-se-ia, lentamente, no exterior. Em 1811, um viajante inglês surpreendia-se com a pobreza do lugar, “reduced to a mere fishing-place”, junto à baía de Sagres e à vista da fortaleza, e imaginava glórias passadas.

Uma suposta “escola náutica”, ligada aos descobrimentos marítimos portugueses e à figura do Infante D. Henrique, fantasia anterior ao Romantismo, mas estimulada por este, entrou na mitografia de Sagres. Esta ficção não resistiu, contudo, à comprovação documental.

O critério fortificador partiu sempre de um princípio simples: construção de uma cortina, de falésia a falésia, no istmo, impedindo o acesso ao promontório, onde algumas baterias batiam as enseadas (Sagres e Belixe) e praias (Mareta e Tonel), de um lado e de outro, a essencial função deste ponto fortificado. No entanto, como notava Alexandre Massai, as peças voltadas para o mar ficavam demasiado elevadas e dificilmente atingiam os navios inimigos e defendiam os amigos. Além disso, como escreveu o engenheiro Manuel Azevedo Fortes, sofria de uma grave deficiência: se sitiada não podia receber auxílio, nem por terra, nem por mar.

O problema do abastecimento de água foi resolvido através de duas “maretas”, reservatórios de água da chuva abertos na rocha e abastecidos por canos artificiais, no exterior da fortificação, e por cisterna no interior.

A primeira fortificação da Ponta de Sagres, de que há testemunho escrito, foi levantada no século XV e atribuída ao Infante (por Cadamosto e Zurara). Mais de um século depois, um desenho inglês, de 1587, mostra uma muralha defensiva, de data incerta, com mais de oito metros de altura, ameiada, ainda à antiga, mas em “dentes de serra” (como a desaparecida cerca defensiva de Vila Nova de Portimão), inovação anterior ao baluarte, cujas inflexões permitiam flanqueamento com armas individuais, e dois pequenos meios baluartes modernos, nos extremos, estes em construção aquando da visita de D. Sebastião, em 1573. A porta situava-se no centro. Uma dupla cortina interior, de passagens desenfiadas, protegia a entrada e dificultava o acesso ao interior. Estão ainda desenhadas diversas construções, como a igreja, e um pano de muro ameiado, aparentemente mais antigo.

Em 1573, tinha uma guarnição de 17 soldados, o que se afigura reduzido para a grande extensão de muralha, cerca de 180 metros, em caso de ataque terrestre. Durante o domínio filipino, foi ocupada por soldados espanhóis; em 1587, para poder dispor dos ancoradouros, F. Drake, atacou e destruiu o sistema defensivo do Cabo de São Vicente/Sagres, tendo tomado a fortaleza, que sucumbiu perante a larga superioridade numérica do inimigo.

Cerca de duas décadas depois, Alexandre Massai informa que nela assistiam 20 soldados e sete artilheiros, mais três oficiais. Em 1640, continuava sob comando espanhol, que isolado e sem perspectivas de receber auxílio por terra ou por mar, entregou a fortaleza às novas autoridades portuguesas, sem haver disparado um tiro.

Ao longo dos séculos XVII e XVIII, da Praça de Sagres, com sede nesta fortaleza, dependiam vários outros pontos fortificados: Arrifana, Carrapateira, São Vicente, Belixe e Baleeira. Conheceu, entretanto, transformações. Numa planta da autoria de Alexandre Massai ainda está desenhada a antiga muralha, mas o engenheiro propõe a construção de dois meios baluartes maiores, acasamatados, nas extremidades. Nessa altura existia defronte da porta um revelim mandado fazer já na época filipina, defronte do qual Massai propôs um fossete, ou, em alternativa, um fosso diante de toda a fortificação. Durante a Guerra da Restauração, foi enviado ao Algarve o engenheiro Pedro de Santa Colomba, que, em 1653, relatava ter feito projecto para Sagres, mais uma vez optando por dois meios-baluartes; no ano seguinte, a obra estava iniciada, mas terá parado antes de terminar.

O terramoto de 1755 causou-lhe grandes danos, já na muralha, já nas restantes construções, ficando em ruínas. No mês de Agosto de 1759, durante a Guerra dos Sete Anos, os poucos navios que restavam de uma armada francesa, destroçada pelos ingleses, refugiaram-se junto à costa, entre Sagres e Almádena, tendo sido mesmo assim atacados. O episódio deu origem a um veemente protesto português, junto do governo britânico, pela mão do Marquês de Pombal.

Em 1788, segundo uma planta de José Sande de Vasconcelos, eram ainda visíveis vestígios da velha muralha em “denticulado”, mas uma nova cortina e dois meios baluartes com os flancos parcialmente recuados, do método do Conde de Pagan, estavam começados. Fora das muralhas, no interior, apresentava também baterias, voltadas para o mar, uma na extremidade do promontório, duas apontando para a baía do lado de leste e uma para a baía do lado contrário.

Finalmente, na última década de Setecentos, a fortaleza recebeu grandes obras, em que foram aplicados avultados recursos financeiros, facto a que não terá sido alheio o contexto político-militar da época, com o conflito entre ingleses e franceses a trazer a guerra para os nossos mares, e, até, o mito do Cabo e da figura do Infante, que o Romantismo haveria de enaltecer. A sua possante massa patenteia uma dimensão retórica, com capacidade de enviar uma mensagem. Porém, em 1811, recentemente concluída, já havia fendas nos muros e o terrapleno tinha abatido cerca de 25 cm, e, com ele, as plataformas para a artilharia e as banquetas para os soldados acederem aos parapeitos. De resto, apesar da imponência das muralhas, não foram projectadas quaisquer obras exteriores do programa de fortificação moderna.

A sua cortina, com o portão neoclássico no centro, os dois meios baluartes e o cavaleiro, na retaguarda, marcam hoje a imagem poderosa da fortaleza. O acesso fazia-se transpondo um fossete (há muito coberto) defronte da porta, através de alçapão (ponte levadiça); franqueada a porta, o trânsito para o interior era abobadado e com aberturas para defesa vertical. Os baluartes e o cavaleiro foram dotados de canhoneiras para a artilharia.

No início do século XIX, o coronel engenheiro inglês G. Landmann não via razão militar ou política para tão pujante fortaleza neste sítio, mas as suas baterias continuavam a vigiar as baías próximas, e a insegurança não desparecera ainda: em Junho de 1817, uma escuna argelina, dissimulada com bandeira da América inglesa, procurava presa, sendo atacada pela artilharia de Sagres; e, pela mesma altura, estando 16 navios portugueses, ingleses e espanhóis, ancorados na baía de levante, escunas de “insurgentes” espanhóis (corsários ao serviço das colónias espanholas da América, em luta pela independência) cruzavam o Cabo, pondo em risco os navios espanhóis e, por vezes, os portugueses. Era então guarnecida por uma Companhia de Artilharia.

Ao longo do século XIX, a fortaleza entrou em declínio: a propulsão mecânica emancipou os navios, não mais dependentes dos ventos, e as formas de fazer guerra mudaram. No início do XX, os edifícios do interior eram utilizados como alojamentos de faroleiros e civis. Em 1910, foi classificada de “monumento nacional”. Algumas décadas depois, no V Centenário da Morte do Infante (1960), nela se fizeram obras e alterações destinadas a valorizá-la, sob os pressupostos ideológicos do Estado Novo: devolver à “correnteza” (o alinhamento de construções existente no interior) a imagem do tempo do Infante, a partir do desenho inglês de 1587, bem como outras alterações, nomeadamente na porta da fortaleza, cujo vão foi subido.

Em 1996/1997, recebeu nova intervenção, que incidiu especialmente sobre a “correnteza”, no meio de polémica. O retábulo barroco, proveniente da Matriz de Vila do Bispo, que quase quatro décadas antes fora apeado do seu lugar de origem e colocado na capela do forte de Belixe, veio, então, mais uma vez transferido, para a igreja da fortaleza de Sagres.

Hoje, a fortaleza tem utilização turística; é, aliás, um dos pontos turísticos algarvios mais apelativos, onde os visitantes apreciam os seus fortes muros, a enigmática “rosa-dos-ventos”, a igreja de Nossa Senhora da Graça, a rude e grandiosa paisagem, “sentem” o “espírito” do Infante e podem usufruir de alguns serviços.

Fontes e bibliografia sucinta

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ANTT, PT-TT-MPRQ-33-18_m79-m83, Memórias Paroquiais de Sagres. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4241560.

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GARCIA, J. M. & CUNHA, R. (1990) - Sagres. Vila do Bispo: Câmara Municipal.

LOUREIRO, F. de Sales (1984) - Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve. Lisboa: Livros Horizonte.

MAGALHÃES, N. & PARREIRA R. (coord.) (2009) - Sagres. Do Mar e do Tempo. Faro: Direcção Regional da Cultura do Algarve.

MOREIRA, R. (1989) - A Época Manuelina. História das Fortificações Portuguesas no Mundo. Lisboa: Ed. Alfa, p. 91-142.

QUARESMA, A. M. (1991) - O Algarve Ocidental visto por um Inglês no início do século XIX. Espaço Cultural, 6, p. 7-26.


Fig. 77 - Planta da fortaleza, com as obras feitas e a fazer [1617], presumivelmente por Alexandre Massai. É visível a antiga muralha denteada. Fonte: ANTT, PT-TT-CCDV-29_m0090. URL: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=3908671.


Fig. 78 - Planta da Fortaleza de Sagres, 1754, assinada por Francisco Lobo Cardenal. Ainda é visível o antigo muro denteado, por detrás dos baluartes. Fonte: ANTT,PT-TT-MR-1-71_m0008. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960.


Fig. 79 - Planta da fortificação e quartéis de Sagres, ca. 1793, por José Sande de Vasconcelos. Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal, cpar-118. URL: http://purl.pt/22533.


Fig. 80 - Mapa da Ponta de Sagres, ca. 1793, por José Sande de Vasconcelos. Fonte: BNP, cpar-27. URL: http://purl.pt/23689


Fig. 81 - Prospecto da Ponta de Sagres, de Baltazar de Azevedo Coutinho (ca. 1798). Fonte: ANTT; PT-TT-CRT-211_m0064. URL: http://digitarq.arquivos.pt/details?id=4499965.


Fig. 82 - Planta da Praça de Sagres, 1914. Fonte: BNP, cc-162-p2. URL: http://purl.pt/4608.


Fig. 83 - Plano hidrográfico das enseadas de Belixe, Sagres e Baleeira, 1924. Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal, cc-209-v. URL: http://purl.pt/21976.


Fig. 84 - Interior da fortaleza de Sagres, década de 1980. Foto AMQ.


Fig. 85 - Interior da fortaleza de Sagres, década de 1980. Foto AMQ.


Fig. 86 - Ponta de Sagres, em vista aérea. Foto © DRCAlg-Abílio Leitão, cota 05-DSB8143. 


Fig. 87 - Fortaleza de Sagres, em vista aérea. Foto © DRCAlg-Abílio Leitão, cota 05-DSB8135.


Fig. 88 - Ponta e fortaleza de Sagres, vista de norte. Foto AMQ.


Fig. 89 - Fortaleza de Sagres, vista geral. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 90 - Baluarte de Santa Bárbara. Foto AMQ.


Fig. 91 - Baluarte de Santo António. Foto AMQ.


Fig. 92 - Porta da fortaleza. Foto AMQ.


Fig. 93 - Sagres. Pedra de armas, embutida no tímpano do frontão que encima o portal. Foto Jorge Vilhena.

 

Forte de Baleeira

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Sagres (Figs. 94-100).

Coordenadas: 37º00’30.66’’N; 8º55’41.46’’O

Existente em 1573, aquando da viagem de D. Sebastião ao Sul de Portugal, o Forte de Nossa Senhora da Guia da Baleeira era uma pequena fortificação abaluartada, com fraco armamento e reduzida guarnição, ou mesmo sem guarnição, parecendo servir sobretudo para abrigar os pescadores da almadrava de atuns que ao largo se instalava, e também para evitar desembarques na baía. Esta era ancoradouro de navios, seguro de todos os ventos, excepto quando o vento era mareiro de leste, altura em que os navios se deviam abrigar na enseada de Sagres.

De forma angular, aberto ao mar, o forte apresentava um baluarte no vértice e dois meios baluartes, de orelhões, nas extremidades, para defesa de ataques por terra, com uma bateria sobre a enseada. Alexandre Massai, que se lhe refere como um “fortezinho ou por milhor dizer trincheira”, avaliando assim o seu escasso poder ofensivo, alvitrava a que se fizesse um fossete diante da porta, para melhorar a defesa. Tomada pelos ingleses, em 1587, e pelos espanhóis, em 1666, sempre se mostrou um ponto particularmente vulnerável, por pequena e por praticamente não se encontrar defendida.

Na segunda metade do século XVIII, em planta assinada por Romão José do Rego, encontra-se uma nota a criticar a sua situação, que melhor seria na extremidade da Ponta da Baleeira, cerca de 270 metros mais a além, onde ele marcou uma pequena bateria. Tinha então um parapeito, junto à arriba, sobre o qual assentava a bateria. Na sua capela, estava a imagem de Nossa Senhora da Guia, de grande devoção entre os moradores das redondezas.

Nas vésperas do terramoto de 1755, tinha três peças de artilharia, de bronze, mas os seus muros acusavam alguma ruína, e a acção destruidora do tremor de terra desse ano deitou-o abaixo. No século XIX, as arruinadas instalações estavam abandonadas, mas eram frequentemente ocupadas por uma guarda da guarnição de Sagres, com a finalidade de vigiar qualquer desembarque de contrabando na baía. Após algumas obras de consolidação, já no século XX, voltou a sofrer com os trabalhos efectuados, nos anos 70, no porto da Baleeira. Hoje, os seus restos encontram-se completamente negligenciados.

Fontes e bibliografia sucinta

ANTT, Planta da Fortaleza da Balieira, PT-TT-MR-1-71_m0009

CALLIXTO, C. P. (1986) - As fortificações marítimas dependentes da Praça de Sagres. Forte de N.ª Sr.ª da Guia da Baleeira. Revista de Marinha, 752, Fevereiro de 1986, p. 39-40.

 

Fig. 94 - Planta do forte da Baleeira [1617], presumivelmente por Alexandre Massai. Fonte: ANTT, PT-TT-CCDV-29_m0088. URL ://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=3908671.


Fig. 95 - Planta do forte da Baleeira, 1621, por Alexandre Massai. Fonte: MC, Alexandre Massai, códice de Descripcaõ […], fl. 45.


Fig. 96 - Planta do forte da Baleeira (1754?), assinada por Romão José do Rego. Fonte: ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0009. URL http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960


Fig. 97 - Planta do forte da Baleeira (e bateria do Zavial), [1825]. Fonte: GEAEM-DIE, 317-1-8A-96.


Fig. 98 - Ruínas do forte da Baleeira. Foto AMQ.


Fig. 99 - Ruínas do forte da Baleeira. Foto AMQ.


Fig. 100 - Ruínas do forte da Baleeira. Porta. Foto AMQ.

 

Forte e Bateria do Zavial

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Raposeira (Figs.101-107).

Coordenadas: 37º02’40.84’’N; 8º52’33.22’’O

Na região existiu uma antiga torre, que, não sendo uma fortificação, fazia vigilância da costa, para evitar que qualquer inimigo apanhasse os moradores de surpresa, de que não subiste vestígio conhecido.

Por princípios do século XVII, aquando do reconhecimento efectuado na costa do Algarve, por Alexandre Massai, este aconselhava que fosse fortificada a armação de pesca do “Azavial”, entre outros pontos. Em 1631, o provedor das almadravas insistia, junto do rei, na fortificação dos postos do Zavial e de Almádena. O governador e capitão general do Algarve D. Luís de Sousa, Conde do Prado (1630-1633), mandou, então, edificar um forte, à própria custa, para defesa da valiosa armação que se instalava nesta parte da costa. Na mesma altura mandou erigir, também à sua custa, o forte de Almádena.

O forte do Zavial foi construído num ilhéu rochoso, junto à arriba costeira, com que se ligava por ponte dormente e levadiça, após inicialmente ter sido escolhida uma ponta, de que se desistiu por a ilhota oferecer melhores condições de defesa da armação e da própria fortificação. Nesta ponta está marcada, na planta do forte, uma torre de vigia. De planta poligonal, de acordo com a forma do rochedo em que se edificou, possuía alojamentos para os pescadores da armação, que o defendiam, e apontava uma bateria para o mar. Do lado de terra, como houvesse alguns “padrastos” (lugares mais altos, de onde o inimigo podia atingir o interior da fortificação), a cortina foi levantada até mais de 5 metros de altura, para compensar, entre outras soluções. O forte foi denominado de Santo Inácio. Em 1754, estava em regular estado de conservação e dotado de duas peças de artilharia, de bronze, de calibre 8 e 12, considerando-se, então, que necessitava de mais armamento. Porém, no ano seguinte, o terramoto destruiu-o totalmente.

Como, poucos anos depois, houvesse guerra com a Espanha, foi notada a falta de fortificação no local, tendo-se optado pela construção de uma simples bateria, conforme opinião do sargento-mor de engenharia Romão José do Rego, em 1765. Edificada em terra firme, era aberta pela “gola” e artilhada com três peças recuperadas do antigo forte, dispostas à barbeta. A parte ocupada por quartéis e paiol ficava recuada relativamente à bateria e sem comunicação edificada com ela. Em 1792, a guarnição era composta por um cabo e dois soldados, do Regimento de Infantaria de Lagos, e três artilheiros.

Hoje, de toda a fortificação que existiu neste local, apenas restam alguns muros dos parapeitos arruinados da bateria e das suas dependências (quartéis e paiol), percorridos por alguns visitantes que frequentam as praias próximas, mas em estado de abandono.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1986) - A torre do Zavial. Revista de Marinha, 754, Abril de 1986, p. 39-40.

CALLIXTO, C. P. (1986) - Fortificações marítimas dependentes da Praça de Lagos. O Forte do Zavial. Revista de Marinha, 755, Maio de 1986, p. 38-39.

CALLIXTO, C. P. (1986) - Fortificações dependentes da Praça de Lagos. A Bateria do Zavial. Revista de Marinha, 756, Junho de 1986, p. 30-40.

MANSO PORTO, C. (1999) - Cartografia Histórica Portuguesa. Catálogo de Manuscritos (siglos XVII y XVIII). Madrid: Real Academia de la Historia.

Fig. 101 - Planta do forte do Zavial [1629-1633]. Fonte: Madrid, RAH, Departamento de Cartografía y Artes Gráficas. Signatura: C-I c 73 p. URL: http://bvpb.mcu.es/es/consulta/resultados_busqueda.cmd?posicion=78&forma...


Fig. 102 - Planta do forte do Zavial (1754?), assinada por Romão José do Rego. Fonte: ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0010. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960.


Fig. 103 - Mapa com a situação das baterias do Zavial (C) e Burgau (D), [1788], de José Sande de Vasconcelos. Fonte: GEAEM/DIE, 301-1-8A-96.


Fig. 104 - Bataria do Zavial e vestígios do antigo forte, de Baltazar de Azevedo Coutinho (ca. 1798). Fonte: ANTT; PT-TT-CRT-211_m0059. URL: http://digitarq.arquivos.pt/details?id=4499965.


Fig. 105 - Ruínas da bateria do Zavial, com quartéis em primeiro plano. Foto AMQ.


Fig. 106 - Ruínas da bateria do Zavial. Parapeito. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 107 - Ruínas da bateria do Zavial. Vestígios do parapeito sobre a rocha. Foto Jorge Vilhena.

 

Forte da Figueira

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Budens (Figs.108-112).

Coordenadas: 37º01’38.15’’N; 8º50’19.63’’O

Edificado sobre a falésia, junto à praia do mesmo nome, onde desagua um ribeiro, o Forte de Vera Cruz da Figueira foi construído na segunda metade do século XVII, para vigiar e defender a costa em frente e evitar desembarques de corsários mouros, de que há informações. Numa noite de Maio de 1670, por exemplo, um bergantim corsário desembarcou aqui alguns tripulantes, que, avistados, foram repelidos de modo decidido pelos habitantes da aldeia de Figueira.

De forma pentagonal, este forte tinha dois meios baluartes para defesa da porta e da cortina voltada a terra, e duas plataformas desniveladas, com artilharia, viradas para o mar, sendo dotado de quatro peças, na de cima, e de duas, na de baixo. Os seus tiros encontravam os do forte do Zavial, a ocidente, e os de Almádena, a oriente.

O terramoto de 1755 e a instabilidade da falésia, atacada pelo mar, a que se juntou a falta de reparações, conduziram-no a grande ruína. Em finais do século XVIII, muito danificado, ainda tinha uma pequena guarnição de dois soldados e dois artilheiros, havendo as duas peças de artilharia sido retiradas da proximidade do penhasco, que ameaçava desmoronar-se; em 1821, parte da bateria desabou e caiu ao mar, juntamente com uma peça de bronze, restando ainda duas bocas de fogo, de bronze, calibre 13, mas desmontadas.

Em 1840, considerava-se que não tinha utilidade militar, estando abandonado e arruinado. O seu sítio sofria, aliás, de vários óbices, nomeadamente a instabilidade da arriba, susceptível de ruir, inclusive com o próprio disparo da artilharia. Além disso, pelo lado de terra, era dominado por várias alturas, o que fragilizava a posição em caso de ataque daí proveniente.

Por meados do século XX, o velho e arruinado forte ainda chegou a estar à venda, mas não apareceu comprador. Do edifício permanecem, hoje, apenas pedaços de demolidos e abandonados muros.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1986) - Fortificações marítimas dependentes da Praça de Lagos. O Forte de Vera Cruz da Figueira. Revista de Marinha, 758, Agosto de 1986, p. 37-39.

Fig. 108 - Planta do forte da Figueira (1754?), assinada por Romão José do Rego. Fonte: ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0011. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960


Fig. 109 - Planta do forte da Figueira [1788], de José Sande de Vasconcelos. Fonte: GEAEN/DIE, 297-1-8A-96.


Fig. 110 - Ruína do forte da Figueira, vista da praia. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 111 - Ruína do forte da Figueira, vista da praia. Foto AMQ.


Fig. 112 - Forte da Figueira. Foto sobre o mar, a partir das ruínas do forte. URL: http://static.panoramio.com/photos/large/95668611.jpg (acedida em 29 de Julho de 2014).

 

Forte de Almádena

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Budens (Figs. 113-122).

Coordenadas: 37º04’00.09’’N; 8º48’16.08’’O

Já por princípios do século XVI, Alexandre Massai apontava as armações de pesca de Almádena e do Azavial como merecedoras de fortificação. E, em 1631, o provedor das almadravas insistia que fossem fortificadas as mesmas posições. No ano seguinte, finalmente, D. Luís de Sousa, Conde do Prado, governador e capitão general do Algarve, mandou construir o forte sobre a arriba, a leste da praia da Boca do Rio, para “defensa da pescaria dos atuns e da costa”. A lápida então colocada no forte, em que consta a data e o facto de o Governador o ter edificado à sua custa, bem como ter sido dedicado a São Luís, está hoje guardada no Museu de Lagos. Ao mesmo tempo mandava fortificar o Azavial.

O desenho mais antigo que se conhece deste forte mostra-o com planta poligonal: do lado da terra, abria a porta, defendida por dois baluartes e fosso com ponte levadiça; para o mar virava as baterias, dispostas a barbeta. Possuía ainda uma praça de armas alta, abobadada, que servia de torre de vigia, sob a qual ficava a capela. Inicialmente era o próprio pessoal da armação que guarnecia o forte, havendo alojamento para os pescadores e armadores, além do capitão, do “bombardeiro” (artilheiro) e do capelão.

Em 1747, apontava para o oceano duas baterias desniveladas, com duas peças de bronze, a de cima, e uma de ferro, a de baixo. Os seus quartéis tinham capacidade para quatro a seis soldados. Ao contrário do que aconteceu noutros fortes, este não sofreu grandes danos com o terramoto de 1755, mas algumas décadas depois carecia de obras, especialmente nos quartéis e na casa do governador. Em Agosto de 1759, um episódio da guerra entre ingleses e franceses desenrolou-se praticamente debaixo dos seus silenciosos muros.

O corso marítimo aproximava-se do seu fim e, naturalmente, estava a terminar a razão por que tinha sido edificado e a necessidade de o conservar. Hoje, entre os pedaços ainda erguidos, distinguem-se a cortina virada para terra, com a porta defendida por fossete e pelos flancos retirados de dois baluartes de orelhões, acasamatados, possivelmente resultantes de obras efectuadas próximo do fim do século XVIII.

Durante a guerra civil (1832-1834) ainda recebeu artilharia, mas, passado esse período, foi abandonado por não ter utilidade. No entanto, por meados do século XIX, as ruínas deste forte eram utilizadas como abrigo de alguns soldados do Regimento de Infantaria 15, de Lagos, em serviço de vigilância da costa especialmente por causa do contrabando de tabaco.

Em 1946, a pedido da Câmara Municipal de Vila do Bispo, o edifício foi entregue ao Município, pelo Ministério das Finanças, para onde tinha sido transferido em 1940. Está hoje classificado de “imóvel de interesse público” e, apesar de ser um edifício ainda notável, encontra-se desprezado, o que vem agravando o seu estado de conservação.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1986) - As Fortificações dependentes da Praça de Lagos. O Forte de S. Luís de Almádena”. Revista de Marinha, 759, Setembro de 1986, p. 26-27.

CALLIXTO, C. P. (1986) - As Fortificações dependentes da Praça de Lagos. O Forte de S. Luís de Almádena. 2.ª parte. Revista de Marinha, 760, Outubro de 1986, p. 46-47.

MANSO PORTO, C. (1999) - Cartografia Histórica Portuguesa. Catálogo de Manuscritos (siglos XVII y XVIII). Madrid: Real Academia de la Historia.

Fig. 113 - Planta do forte de Almádena [1632]. Fonte: RAH, Departamento de Cartografía y Artes Gráficas. Signatura: C-I c 74 p. URL: http://bvpb.mcu.es/es/consulta/registro.cmd?control=BVPB20100054338.


Fig. 114 - Planta do forte de Almádena (1754?), assinada por Francisco José do Rego. Fonte: ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0012. URL: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960


Fig. 115 - Planta do forte de Almádena [1788], por José Sande de Vasconcelos. Fonte: GEAEM/DIE, 298-1-8A-96.


Fig. 116 - Forte de Almádena, sobre a falésia, com praia da Boca do Rio em primeiro plano. Década de 1980.


Fig. 117 - Forte de Almádena. Vista de norte. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 118 - Forte de Almádena. Foto AMQ.


Fig. 119 - Forte de Almádena. Baluarte. Foto AMQ.


Fig. 120 - Forte de Almádena. Flanco de baluarte, com canhoneira (seteira?) para defesa da porta. Foto AMQ.


Fig. 121 - Forte de Almádena. Porta. Foto Jorge Vilhena.


Fig. 122 - Forte de Almádena. Ruína da capela. Foto AMQ.

 

Bateria do Burgau

Localização: Distrito de Faro. Concelho de Vila do Bispo. Freguesia de Budens. Lugar de Burgau (Figs.123-128).

Coordenadas: 37º04’19.22’’N; 8º46’21.88’’O

Situada sobre a arriba, junto à povoação piscatória do mesmo nome, esta pequena fortificação, de cerca de 16 por 14 metros, foi construída, algo tardiamente, por meados do século XVIII. Na proximidade terá existido uma antiga torre de vigilância da costa, reedificada na mesma altura, mas entretanto desaparecida.

A bateria do Burgau servia, sobretudo, para proteger uma armação de pesca aqui instalada. Era composta de uma plataforma artilhada, virada para o mar, e, na retaguarda desta, os quartéis e o paiol, formando quatro divisões, com cobertura abobadada. Estava armada com duas peças de ferro, de pequeno calibre. Com o terramoto de 1755, sofreu estragos, reparados rapidamente. Por finais do mesmo século, dependendo da Praça de Lagos, já acusava deficiências: apesar de ter uma guarnição de sete homens (um cabo e seis soldados), só uma das peças, de calibre 6, estava montada.

Na primeira metade do século XIX, noutro contexto político e militar (guerra civil), ainda esteve defendida para tentar evitar qualquer desembarque na praia. Em 1882, já sem utilidade militar, era habitada por um velho soldado de Veteranos, que cuidava da sua conservação. Finalmente, em 1943, o Estado vendeu o edifício, que, em 1977, foi classificado de “imóvel de interesse público”, mas nem a privatização, nem a classificação o salvaram de funções menos apropriadas, como a de pocilga, nem do total abandono a que foi votado até hoje.

Bibliografia sucinta

CALLIXTO, C. P. (1987) - As fortificações marítimas da Praça de Lagos. Bateria do Burgau. Revista de Marinha, 763, Janeiro de 1987, p. 34-35


Fig. 123 - Planta da bateria do Burgau (1754?), assinada por Romão José do Rego. Fonte: ANTT, PT-TT-MR-1-71_m0013. URL:
 http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4242960


Fig. 124 - Planta da bateria do Burgau, 1881, por Henrique dos Santos Rosa. Fonte: GEAEM /DIE, 5734-1-3-5.


Fig. 125 - Ruínas da bateria do Burgau. Foto AMQ.


Fig. 126 - Ruínas da bateria do Burgau. Foto AMQ.


Fig. 127 - Ruínas da bateria do Burgau. Foto AMQ.


Fig. 128 - Ruínas da bateria do Burgau. Quartéis e paiol. Foto AMQ.

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