E.T.A.R. de Vila Nova de Mil Fontes

Freguesia/Concelho: Vila Nova de Mil Fontes (Odemira)

Localização: 37°43’38.10”N; 8°47'34.40"W. (C.M.P. 544, Odemira, esc.1:25000).

Cronologia: Calcolítico.

 Localizado junto à arriba um pouco a norte da foz do Rio Mira, sobre um substrato de duna consolidada do final do Plistocénico (Fig.1), o sítio da E.T.A.R. de Vila Nova de Mil Fontes foi identificado por Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares na década de noventa do século passado. Nessa altura foi reconhecida uma extensa área (cerca de 1000 metros por 100 metros ao longo da arriba) onde se registaram inúmeros vestígios à superfície atribuíveis ao Calcolítico, tendo então sido realizada uma pequena sondagem de caracterização (Silva e Soares, 1997).

Já no início da segunda década do século XXI, o alargamento das infraestruturas da E.T.A.R. localizada nessa área conduziria a uma intervenção de minimização realizada pela empresa Era Arqueologia, através de uma escavação que abrangeu uma área de 525m2 (Valera e Parreira, no prelo).

A conjugação dos dados atualmente disponíveis permite caracterizar este local como um habitat aberto, com uma área extensa, mas correspondendo provavelmente a uma estratégia de utilização marcada por forte sazonalidade, datada do Calcolítico. Uma datação de radiocarbono, obtida sobre concha de Monodonta lineata (caracol do mar), situa um momento dessa ocupação dentro da primeira metade do 3º milénio a.n.e. (ICEN-726: 4500±60BP – 2850-2622 cal AC - Silva e Soares, 1997).

A intervenção em área permitiu identificar uma estratigrafia composta por níveis que correspondem a fases de ocupação intercaladas por depósitos caracterizados por alguma rarefação de estruturas e artefactos, indiciando uma intermitência de permanência. Foram identificados vários tipos de estruturas e áreas de atividade (Fig. 2): buracos de poste com os respetivos calços, estruturas de combustão (lareiras), fossas preenchidas por nódulos de argila cozida, zonas de acumulações de conchas (depósitos conquíferos) e uma grande cabana.

Esta cabana (Fig. 3) corresponde a uma estrutura de planta circular com 10 metros de diâmetro, definida por uma sequência de sulcos preenchidos por calços que serviriam de infraestrutura das paredes (provavelmente de ramagens entrelaçadas revestidas a argila). No interior dois buracos de grandes postes centrais foram identificados, assim como um piso de argila que cobria toda a área (exceto junto às paredes) e quatro bases de postes mais pequenos, compostas por lajes de xisto circulares assentes no piso de argila (Fig. 3C). A entrada da cabana era ampla, com dois metros de largura, apresentando um grande poste a meio, perfeitamente alinhado com os grandes postes centrais. A entrada está aberta a Sudoeste e o alinhamento dos postes está orientado a 121º, ou seja, genericamente ao solstício de Inverno (Fig.3D). Cabanas deste género e dimensões são raras no calcolítico peninsular, sendo apenas conhecidas em grandes recintos de fossos, de que Perdigões (Reguengos de Monsaraz, Portugal) e Marroquiés Bajos (Jaén, Espanha) são exemplo.

Os materiais arqueológicos registados enquadram-se em diversas categorias artefactuais, ganhando algum protagonismo, face à natureza do contexto, o conjunto de objetos metálicos e o composto por peças de carácter ideográfico.

O conjunto mais representativo é o das cerâmicas, estando presentes os pratos de bordo simples e espessado, alguns fragmentos de peças carenadas, taças em calote, assim como alguns esféricos e globulares. Destaque para um fragmento de prato com decoração simbólica com representação dos olhos soliformes e tatuagens faciais (Fig. 4). Ainda em cerâmica, foram recolhidos elementos de tear em forma de crescente em ambas as intervenções (na última concentrados no interior de uma fossa).

Nos trabalhos mais recentes destaca-se ainda uma indústria lítica com peças de uso expedito, mas onde ocorrem igualmente segmentos retocados de grandes lâminas de sílex ou chert e pontas de seta de base côncava igualmente em sílex. A pedra polida está presente, através de vários machados e algumas pequenas enxós, estando os elementos de moagem ausentes (Fig. 5).

Não existindo qualquer evidência da prática de metalurgia, os artefactos em cobre estão representados por uma faca, a extremidade de um escopro, um longo estilete e dois fragmentos de serra (Fig. 6).

Uma única peça corresponde a um elemento de adorno (uma conta esferóide, com orifício circular lateral).

Finalmente, destaque para três ídolos betilo em calcário ou calcite (um deles decorado com olhos, sobrancelhas e tatuagens faciais) e dois recipientes igualmente em calcário, um inteiro e um fragmento (Fig. 7).

Os dados paleo-económicos referem-se essencialmente ao marisqueio, mas já sem a intensidade de períodos anteriores, não gerando verdadeiros concheiros, mas formações conquíferas de reduzida expressão estratigráfica. Nas espécies consumidas estão presentes os crustáceos, representados pelo Pollicipes cornucópia (Perceves), e os moluscos, representados por Patella sp. (Lapa), Monodonta lineata (Caracol do mar), Thais haemastoma (Buzio ou púrpura), Mytilos sp. (Mexilhão), Venerupis decussata (Ameijoa), Glycimeris sp. (Castanhola), Ostrea edulis (Ostra) e Pecten maximus (Vieira). Para além dos restos de marisqueio, surgem alguns, raros, restos de fauna mamalógica, entre os quais se identificou a presença de Bos taurus (Boi doméstico).

Informação quantitativa sobre o marisqueio neste sítio apenas está disponível para uma amostra proveniente da sondagem realizada nos anos noventa, mas que os dados mais recentes não parecem desmentir. A Monodonta lineata (com valores superiores a 50%) predomina sobre as restantes espécies, seguida a considerável distância pela Patella sp. e Thais haemastoma com valores que rondam os 15%. As restantes espécies apresentam valores muito baixos ou mesmo residuais, como é o caso da Pecten maximus que, mais do que molusco consumido (dada a profundidade do seu habitat natural), deve representar uma situação de uso da concha possivelmente em práticas de carácter simbólico (comum durante o Calcolítico).

Este espectro da fauna malacológica traduz uma fraca exploração dos recursos estuarinos de fundos arenosos e vasosos da foz do Mira (ameijoa e ostra com baixa percentagens) e uma preferência pela exploração de ambientes rochosos e intertidais. A espécie dominante (Monodonta lineata), de baixo valor alimentar, revela uma recolha sistemática no nível superior médio litoral, a qual aponta para uma recoleção de Inverno, quando o acesso aos níveis mais baixos do médio litoral e ao infralitoral superior está mais dificultado (Silva e Soares, 1997: 100). Neste sentido, é interessante registar a coincidência desta situação com a orientação ao solstício de Inverno apresentada pela cabana, reforçando a ideia de que este local seria frequentado durante essa estação do ano.

Contudo, a presença de outras espécies de habitats de cotas mais baixas (como a Thais haemastoma), ainda que com percentagens bem inferiores, poderá indicar a presença humana noutras épocas do ano, reforçando a ideia de um carácter intermitente da ocupação.

De que tipo de sítio nos falam os dados atualmente disponíveis?

A extensa área de dispersão de vestígios não corresponderá a uma área total ocupada de uma só vez (portanto de um grande sítio), mas a diferentes e dispersas ocupações temporárias, como a sequência estratigráfica parece documentar.

Um significativo nível de especialização do marisqueio de Monodonta lineata indicia uma preponderante ocupação do sítio no Inverno e, sobretudo, uma situação mais complexa que o simples marisqueio como estratégia económica de subsistência. A globalidade dos dados apontam para ocupações de caracter sazonal mas regular, onde o consumo moderado de uma espécie específica relacionada com um momento anual específico se articula com evidências arqueológicas de exceção: materiais de forte carga simbólica e uma estrutura de cabana que pelas dimensões, larga entrada e significante orientação, mais se coaduna com uma estrutura comunitária para práticas sociais de forte carga simbólica, de dimensão religiosa, política ou identitária, do que com uma estrutura simplesmente habitacional.

O sítio da ETAR de Vila Nova de Mil Fontes não será um habitat especializado no marisqueio, mas um lugar que se integrará num sistema sócio-económico mais complexo, de expressão espacial mais vasta, onde a componente marítima poderá assumir uma dimensão mais simbólica que estritamente económica.

A sazonalidade sugerida, onde o litoral é parte de um território mais abrangente explorado por comunidades que terão os seus estabelecimentos estáveis mais no interior, aponta para que a componente do marisqueio seria um complemento, mas um complemento que os dados contextuais indiciam ser mais de natureza simbólica que económica, dimensão que, frequentemente, o consumo de determinados alimentos assume. Esta hipótese articula-se bem com a presença de evidências de ritualidade (nos materiais e na arquitetura da cabana) e poderá explicar a preferência destacada por uma espécie específica. Mais do que procura de alimento, numa perspetiva de mera subsistência, estas comunidades poderiam sazonalmente deslocar-se ao litoral para recoletar e consumir moluscos no contexto de eventos sazonais de forte carga simbólica e ideológica (como, por exemplo, sempre foram os solstícios), associados à gestão de identidades, negociação política e controlo ideológico do seu sistema económico, social e cosmológico.

António Carlos Valera

Referências Bibliográficas

SILVA, C. & SOARES, J. (1997) – Economias costeiras na Pré-história do Sudoeste Português. O concheiro de Montes de Baixo. Setúbal Arqueológica, 11-12, p. 69-108.

VALERA, A. C. & PARREIRA, J. (No Prelo) – Ocupação calcolítica da Costa Alentejana: problemáticas levantadas pela nova intervenção na E.T.A.R. de Vila Nova de Mil Fontes (Odemira). Actas do VIII Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular, Serpa (2014).

Fig. 1 – Localização do sítio da E.T.A.R. de Vila Nova de Mil Fontes na costa alentejana.

Fig. 2 – Planta geral e pormenores das estruturas identificadas nas escavações em área: A. e B. – Buracos de poste; C – Fossa preenchida com nódulos de argila cozida; D – Fundações da estrutura de cabana circular; E – Estruturas de combustão.

 

Fig. 3 – Aspeto da estrutura de cabana. A – Vista dos calços inseridos nos sulcos de delimitação da cabana e o piso de argila no interior; B – Aspeto dos sulcos de implantação das paredes e dos buracos de grandes postes centrais; C – Aspeto de uma das lajes de xisto de suporte de pequenos postes; D – Planta da cabana, com localização da entrada e alinhamento orientado dos postes centrais e da entrada.


Fig. 4 – Cerâmicas provenientes das escavações em área na ETAR de VNMF.


Fig. 5 – Materiais líticos provenientes das escavações em área na ETAR de VNMF: pontas de seta, segmentos de lâmina e utensílios líticos polidos (machados e enxós).

Fig. 6 – Materiais metálicos provenientes das escavações em área na ETAR de VNMF: faca, escopro, estilete, serras.

Fig. 7 – Materiais em calcário provenientes das escavações em área na ETAR de VNMF: Ídolos betilo e vasos.

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