Necrópole de Vale Feixe

Freguesia/Concelho: UF Santa Maria e S. Salvador (Odemira)

Localização: 37º36’58,30’’N 8º34’06,23’’(C.M.P. 1:25.000, Folha 553)

Cronologia: Idade do Bronze

O sítio da necrópole de Vale Feixe é tradicionalmente conhecido por Cemitério dos Moiros do Cerro dos Ferreiros. Este cerro é o último de uma cumeada de cristas esguias que se estendem em ziguezague com alinhamento predominante nordeste-sudoeste. A necrópole está no derradeiro ponto alto da cumeada, quando esta começa a descer para as ribeiras do Pomar e Vale Feixe, a sul e oeste.

Do local das necrópole, detém-se um domínio visual extensíssimo para sul e poente, uma sucessão de colinas esguias separadas por vales profundos e pela larga depressão do Mira, onde se impõem os extensos planaltos da Cabeça das Mesas e Mesa Redonda, alguns quilómetros a sul, sobre os quais apenas se eleva o longínquo maciço eruptivo da serra de Monchique (Fig. 1). O local da necrópole é, portanto, muito eminente e privilegiado na vastidão do panorama que dali se detém para uma paisagem em ampla escadaria. Pelo contrário, um cabeço mais alto da cumeada fecha completamente o horizonte visual da necrópole para leste, logo a 50 m. Para noroeste, avista-se imediatamente a elevação do Cerro do Castelo, povoado fortificado possivelmente datado da Idade do Bronze. Estão separados por um córrego profundo com uns setecentos metros de largo, pelo que para chegar de um sítio ao outro, a melhor forma é percorrer o caminho em arco pelas cumeadas, numa distância de mil e duzentos metros, menos de meia hora a pé (Fig. 2).

Na área da necrópole, o maior número de sepulturas aglomera-se no lado nordeste, onde a topografia peculiar do terreno configura duas grandes mamoas alongadas, quase geminadas. Embora sejam de natureza geológica, é provável que o intervalo entre ambas, de menos de 5 m, tenha sido artificialmente rebaixamento (Figura 3).

Na mamoa sul (n.º 1), reconhece-se a presença de, pelo menos, quinze sepulturas de tipo cista (cistas são grandes «caixas» de lajes de xisto ardosífero de planta rectangular ou trapezoidal, fincadas no interior de uma fossa aberta no solo); enquanto na mamoa do lado norte (n.º 2), apenas quatro (Figura 4). Várias grandes lajes, presumivelmente arrancadas de sepulturas desmanteladas, jazem na periferia das mamoas, podendo o número original de sepulturas ser eventualmente maior, em especial na mamoa norte (Figura 5). Pontuam também um pouco por todo o lado, seixos rolados de quartzo leitoso de grande calibre (até 30cm), tanto trazidos de ribeiras como extraídos de veios de quartzo existentes no local. Originalmente, faziam parte das estruturas funerárias da necrópole.

Mais para sudoeste, ao longo da crista, afloram a intervalos de 2-3 m outras nove sepulturas, também de tipo cista alongada, a par de depressões ou cova alongadas que testemunham da violação outras tantas. Por fim, o topo boleado (de cota 188 m) do extremo sudoeste da área da necrópole, a 70m das mamoas 1 e 2, assemelha-se também a uma grande mamoa natural (n.º 3), sobre a qual se concentram grandes lajes de xisto, soltas ou fincadas, que denunciam a presença do provável terceiro núcleo de sepulturas. No total, são seguramente identificáveis no terreno indícios de vinte e sete sepulturas de tipo cista, mas o número original poderia facilmente ascender a ou superar três dezenas. Este é um cômputo similar ao número de cistas em necrópoles da Idade do Bronze do Sudoeste Peninsular, como as vinte de Corte Cabreira (Aljezur), vinte quatro de Quitéria ou vinte e oito de Provença (Sines), mas muito longe das centro e trinta reconhecidas em Atalaia de Ourique. As dimensões das cistas de Vale Feixe variam entre os 1,8 x 0,8 m, nas que estão isoladas, e 0,9 x 0,5 m, nas que fazem parte das mamoas.

Em 2000, foram realizadas escavações arqueológicas nas mamoas 1 e 2, bem com foi efectuado o levantamento topográfico de toda a área da necrópole (Fig. 4). Na mamoa 2, verificou-se da violação e quase destruição das cistas, conforme testemunhos locais, que reportam vários saques das sepulturas para obtenção de machados de cobre ou bronze (Figuras 6 e 7). Na mamoa 1, detectou-se a presença de estruturas funerárias mais complexas, com diversos túmulos monumentais de planta circular, ou ovalada, cada um com aprox. cinco metros de diâmetro, agregados num conjunto com planta em forma de cacho de uva (Figuras 8 e 9). Foram construídos como mamoas baixas de sucessivos anéis de lajes de xisto acamadas, delimitadas por anéis de lajes de maior dimensão, sendo cada túmulo revestido por capa de argila endurecida por batimento e com indícios de aquecimento. Ao centro, dois dos túmulos da mamoa sul têm estruturas quase megalíticas, ou de tipo Ferradeira, de grandes lajes em posição sub-vertical, travadas entre si para contenção da estrutura tumular, e no interior da qual estavam a frágeis sepulturas em cista (Figura 10).

No interior das cistas, um da das quais se encontrou selada por laje de cobertura, encontraram-se apenas pequenas esquírolas de ossos e abundantes carvões, cuja análise antracológica permitiu determinar pertencerem a quercus super (sobreiro). Pelas dimensões das sepulturas escavadas nas mamoas, seria possível realizar nelas enterramentos em decúbito lateral e posição fetal (com os membros flectidos), incluindo uma pequena laje para repouso da cabeça. É manifesta a ocorrência de rituais com uso de fogo, fosse para cremação de cadáveres ou higienização. Nenhum outro espólio foi encontrado, além de fragmentos diminutos de pequenas taças de cerâmica grosseira e de blocos de quartzo. É possível que as cistas tenham sido utilizadas em enterramentos consecutivos.

No anel mais exterior de um dos túmulos da mamoa 2, foi encontrado a parte inferior, muito mal conservada, de um grande pote de fundo plano e paredes verticais, que se interpreta como recipiente de ou para oferendas posicionado na cercadura do monumento funerário (Figura 11).

A necrópole de Vale Feixe apresenta os modelos de arquitectura funerária de tipo Atalaia (Ourique), junto ao Mira: cistas isoladas, de dimensão tendencialmente maior, e agregados de túmulos pétreos em mamoa, ao centro dos quais se fizeram cistas de dimensão menor. Estas características, bem como o escasso espólio recuperado, faz pressupor uma cronologia do Idade do Bronze Pleno, centrada na 1.º metade do 2.º milénio antes da nossa era.

Esta necrópole monumental, que poderá ter sido utilizada por várias gerações, foi implantada num um local cuja fisionomia natural era já destacada e conspícua. Crê-se que se relacione com o fronteiro Cerro do Castelo de Vale Feixe, a noroeste, pois é patente no alinhamento e disposição topográfica das sepulturas uma preocupação em manter uma relação visual directa com este povoado.

Bibliografia:

PARREIRA, R. (1995) - Aspectos da Idade do Bronze no Alentejo Interior. In A Idade do Bronze em Portugal. Discursos de poder. Lisboa: Instituto Português de Museus, p. 131-134.

PARREIRA, R. (1998) - As arquitecturas como factor da construção da paisagem na Idade do Bronze do Alentejo interior. In S.O. JORGE (ed.), Existe uma Idade do Bronze Atlântico? (Trabalhos de Arqueologia, 10). Lisboa: Instituto Português de Arqueologia, p. 267-273.

SCHUBART, H. (1974) - La cultura del Bronce en el sudoeste peninsular. Distribución y definición. In Miscelánea arqueológica - XXV Aniversario de los Cursos Internacionales de Prehistoria y Arqueología en Ampurias (1947-1971), T. 2, p. 345-370.

SCHUBART, H. (1975) - Die Kultur der Bronzezeit im Südwester der Iberischen Halbinsel.Madrider Forschungen, 9. Berlim: Walter de Gruyter.

TAVARES DA SILVA, C. & SOARES, J. (1995) - O Alentejo Litoral no Contexto da Idade do Bronze do Sudoeste Peninsular. In A Idade do Bronze em Portugal. Discurso de poder. Lisboa: Instituto Português de Museus, p. 136-139.

VILHENA, J. & ALVES, L. B. (2008) - Subir à maior altura: espaços funerários, lugares do quotidiano e ‘arte rupestre’ no contexto da Idade do Bronze do Médio/Baixo Mira. Actas do III Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular (Vipasca. Arqueologia e História, 2). Aljustrel, p. 194-218.

VILHENA, J. (2014) - Acupunctura em Odemira: dois séculos de arqueologia. In P. PRISTA (coord.), Ignorância e Esquecimento em Odemira. Odemira: Município de Odemira.

Jorge Vilhena

 

Fig. 1 – Paisagem para sul, desde o local da necrópole do Cemitério dos Moiros do Cerro dos Ferreiros de Vale Feixe.

Fig. 2 – Localização da necrópole do Cemitério dos Moiros (seta da direita) no Cerro dos Ferreiros e do Cerro do Castelo de Vale Feixe (seta da esquerda).

Fig. 3 – Aspecto geral do sector nordeste da Necrópole de Vale Feixe, escavação arqueológica de 2000. Vista tomada de sueste.

Fig. 4 – Levantamento topográfico da Necrópole de Vale Feixe. In Vilhena e Alves, 2008.

Fig. 5 - Aspecto geral do sector nordeste da Necrópole de Vale Feixe, mamoas 1 e 2 (esta mais próxima), durante escavação arqueológica de 2000. Vista tomada de nordeste.

Fig. 6 – Escavação (2000) de sepultura central, violada, da Mamoa 2 da Necrópole de Vale Feixe.

Fig. 7 - Escavação (2000) de sepultura periférica, também destruída, da Mamoa 2 da Necrópole de Vale Feixe.

Fig. 8 – Estrutura tumular na orla leste da Mamoa 1 da Necrópole de Vale Feixe. Escavação de 2000. Vista de leste.

Fig. 9 – Sondagem de 2000 no tumulus central da Mamoa 1 da Necrópole de Vale Feixe. Vista de oeste.

Fig. 10 – Sepultura central, de tipo cista, do tumulus central da Mamoa 1 da Necrópole de Vale Feixe. Escavação arqueológica de 2000.

Fig. 11 – Parte inferior de grande vaso ou taça cerâmica (restaurada) recuperado no anel externo de túmulo lateral da Mamoa 1 da Necrópole de Vale Feixe.

Add new comment