Necrópole rupestre do Reguengo Pequeno

Freguesia/Concelho:S. Luís (Odemira)

Localização: 37°39'09"N; 8°38'42,7"W (C.M.P. 1:25.000, Folha 553)

Cronologia: Época medieval

A necrópole rupestre de Reguengo Pequeno situa-se num afloramento rochoso, na entrada sul do Monte do Reguengo Pequeno, a duas dezenas de metros do lado nascente da E.N. 120 (ao km 92,3) entre Odemira e S. Luís.

Logo à esquerda da entrada na área do conjunto edificado do monte, deparamo-nos com uma superfície de rocha branca lisa e inclinada para oriente de um afloramento de felsito de origem vulcânica, sobre o qual foi construído na primeira metade do século XX um curral. É do lado exterior da parede nascente desse curral que se pode observar um conjunto de meia dúzia de fossas longas talhadas na rocha. Essas fossas, com os eixos maiores alinhados na direcção nascente – poente, são sepulturas rupestres do período medieval.

As sepulturas encontram-se agrupadas em dois conjuntos próximos um do outro. O grupo meridional é composto por três sepulturas paralelas, a intervalos inferiores a um metro. Duas têm contorno sub-rectangular e uma é de forma ovalada. É possível que uma quarta sepultura, com igual alinhamento, se situe um pouco mais a sul.

No grupo setentrional, a distância de cerca quatro metros do primeiro, vêem-se duas sepulturas paralelas nítidas, com a mesma orientação do grupo meridional, sendo uma rectangular e outra, de planta possivelmente antropomórfica (ou seja, talhada na forma do contorno do corpo), com a cabeceira mais elevada, no topo poente. Uma possível sétima sepultura (portanto, a terceira do grupo setentrional) está situada mais a norte, com o eixo maior a sul-norte, perpendicular às restantes do conjunto.

A sepultura mais alongada, possivelmente de contorno antropomórfico, tem ainda um sulco longo na extremidade do lado nascente da fossa, em cota inferior. Destinava-se a drenar líquidos do interior da sepultura, fosse pela chuva ou pelo processo de decomposição dos cadáveres, e assim eliminar os maus odores da putrefacção. É provável que várias das outras sepulturas tenham igualmente canais de escoamento abertos na mesma posição.

Nenhuma destas sepulturas conserva laje de cobertura, mas a sepultura alongada tem um pequeno esteio lateral fincado no seu interior. Todas estão actualmente preenchidas por sedimentos. Sabe-se contudo, que aquando da sua descoberta, há mais de meio século, quando foi construído o curral, as sepulturas foram escavadas por trabalhadores rurais, tendo sido encontradas no seu interior apenas uma ou mais cantarinhas de barro que, entretanto, se perderam.

A tipologia das sepulturas escavadas na rocha da necrópole de Reguengo Pequeno tem uma amplitude cronológica de difícil precisão, mas que se julga ser continuidade na Alta Idade Média da tradição de arquitectura funerária tardo-romana e visigótica cristã. Este tipo de túmulos escavados na rocha é pouco frequente no Sul de Portugal, sendo mais comum nos ambientes de geologia granítica do país, para norte da região de Évora. No Centro e Norte do país, são frequentes em sítios rochosos altos e isolados, com destaque na paisagem, por vezes em associação com castelos medievais e igrejas românicas. Como no Reguengo Pequeno, a grande maioria dos casos compõe-se de até seis sepulturas talhadas na rocha, de um único ou com diversos formatos, sendo predominante a orientação nascente-poente.

As sepulturas talhadas na rocha com formas rectangular e ovalada difundiram-se a partir dos séculos VI e VII d.C., enquanto que às de forma antropomórfica, muitas vezes associadas a igrejas românicas, é atribuída uma cronologia mais tardia, entre os séculos IX e XI. A partir de então, ambos os tipos coexistiram e continuaram a ser utilizados até fases mais tardias da Baixa Idade Média, nos séculos XIII e XIV.

A região de Odemira foi incorporada no reino português apenas em meados do século XIII. A necrópole do Reguengo Pequeno pode ter sido anterior à «reconquista», e utilizada por moçárabes (cristãos hispânicos que viveram em terras islâmicas) antes da tomada cristã do território, dado que o ritual funerário islâmico é muito diferente (simples fossas na terra onde os corpos eram enterrados em posição lateral). Defronte da necrópole, a nordeste, pode ser visto o monte cónico do Castelo de Vale de Gaios, fortificação dos séculos IX a XI. Pode-se também conjecturar que, se a necrópole é posterior a meados do século XIII, foi utilizada por um grupo que era familiar das modas funerárias então em voga na parte setentrional da Península e que aqui as adoptou. Num ou noutro caso, pode-se mesmo pensar que, eventualmente, esta era uma necrópole de colonos vindos de norte.

Segundo a tradição e as práticas mortuárias do cristianismo primitivo, os corpos devem ter sido colocados nestas sepulturas envolvidos apenas em sudários e em decúbito dorsal (posição distendida, deitado de costas). A cabeça era posicionada a poente, de preferência em plano um pouco mais elevado, de forma a que os defuntos pudessem contemplar o sol nascente no dia do Juízo Final e orientar-se para a descida de Cristo à terra no Oriente, em Jerusalém. O talhe do contorno da cabeça na sepultura, que também feito nos sarcófagos e sepulturas em fossa simples (com uso de pedras posicionadas para o efeito) de rito cristão nos séculos XI a XIII, destinava-se a manter direita a cabeça após o rigor mortis e a desconexão esquelética do corpo. Em alguns casos, porém, podem surgir enterramentos em decúbito ventral, isto é, deitados de barriga e cabeça para baixo, que se pensa ter sido castigo dado a justiçados, para lhes dificultar a «vida» no dia do renascimento.

A presença de jarrinhas contendo líquidos bebíveis, segundo a crença da época, serviria para ajudar o defunto no seu percurso além-túmulo até aos justos ressuscitados congregados por Cristo.

Pensa-se que estas sepulturas talhadas na rocha não seriam a regra dos enterramentos medievais, mas sim casos excepcionais, possivelmente de personagens religiosos, como eremitas, ou grupos familiares. No Reguengo Pequeno, as associações em pares de sepulturas de tipos diferentes sugere mais a presença de um grupo familiar, com túmulos de casal em que, por exemplo, a sepultura de contorno possivelmente antropomórfico era destinada a um dos géneros, e as rectangulares ou ovaladas para o outro. É muito provável que as fossas funerárias fossem repetidamente reutilizadas.

Na tradição do mundo romano e paleo-cristão, as sepulturas da Alta Idade Média eram posicionadas junto da estradas. No Reguengo Pequeno, o próprio afloramento rochoso branco era o monumento funerário.

Além da sepulturas escavadas na rocha do Reguengo Pequeno, conhecem-se outras estruturas rupestres de cariz religioso e cultual na mesma área que, com origem na Idade do Ferro, perduraram até à Alta Idade Média: próximas desta necrópole estão Maceirinha e Arcaçoila (apenas a 800 m na direcção nascente), Senhora das Neves (Colos), e os tanques rupestres da Moura e da ponte de V. N. Milfontes.

Bibliografia:

MATTOSO, J. (dir.) (1995) –O reino dos mortos na Idade Média Peninsular. Lisboa: Sá da Costa.

BARROCA, M. (2010-2011) – Sepulturas escavadas na rocha de Entre Douro e Minho. Portvgalia, 31-32, Nova Série. Porto, p. 115-182.

VILHENA, J. (2014) – Acupunctura em Odemira: dois séculos de Arqueologia. In P. PRISTA (coord.), Ignorância e Esquecimento em Odemira. Odemira: Município de Odemira.

VILHENA, J. & RODRIGUES, J.(2010) – A rocha insculpida de Maceirinha (Odemira). Actas do 2.º Encontro de História do Alentejo Litoral. Sines: Centro Cultural Emmerico Nunes, p. 52-64.

Jorge Vilhena

Fig. 1 – Sinalização das sepulturas talhadas na rocha da necrópole de Reguengo Pequeno.

Fig. 2 - Necrópole de Reguengo Pequeno. Aspecto geral das sepulturas, vista de leste (foto de 1999).

Fig. 3 – Sepulturas rupestres do grupo meridional da necrópole de Reguengo Pequeno, vista de oeste.

Fig. 4 – Par setentrional de sepulturas talhadas na rocha da necrópole de Reguengo Pequeno, vista de oeste.

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