As marcas da cristianização em torno do rio Sado e dos seus afluentes: Monte do Roxo, Alvalade do Sado1

Jorge Feio

Introdução

Nos últimos anos tem sido possível conhecer um pouco melhor o processo de cristianização do Alentejo Litoral, sobretudo através do registo arqueológico e do estudo da chamada “arte paleocristã”. São por demais conhecidos os testemunhos identificados em Tróia, com a sua aula basilica e as suas necrópoles; ou o impressionante conjunto de elementos arquitectónicos identificados na zona do castelo e da igreja matriz de Sines, testemunhos daquela que os geógrafos árabes escreveram ser a mais antiga de todas as igrejas da Hispania e também uma das mais belas. Também São João dos Azinhais, junto do Torrão, e Monte do Roxo, têm sido alvo de alguma atenção, mais aprofundada, em ambos os casos, nas publicações correspondentes que ora se reproduzem no presente Atlas.

O Monte do Roxo foi já incluido em algumas publicações mais abrangentes, mas, até ao momento, nunca fora alvo de uma publicação individualizada. Trata-se de uma antiga uilla que, a partir de um determinado momento, no decorrer da antiguidade tardia, poderá ter sido alvo de algumas transformações para instalação de um edifício de culto cristão. Neste momento, não nos é ainda possível determinar com exactidão quais foram as transformações operadas e o momento em que estas se processaram, pois ainda não foram efectuadas escavações arqueológicas no local.

No presente estudo, pretende-se dar a conhecer o estado actual das investigações relativas à basílica do Monte do Roxo, tendo por base o estudo, no campo da Arqueologia e da História da Arte, dos materiais recolhidos ao longo dos anos neste local.

A Villa do Monte do Roxo

Sob o actual Monte do Roxo, Alvalade, Santiago do Cacém, é possível observar vestígios muito importantes de uma antiga uilla romana. Existem notícias da existência de estruturas (incluindo tanques forrados com opus signinum em cujo interior foram recolhidas grainhas ressequidas de uvas), cuppae, lucernas e outros materiais no século XVIII, data em que algumas peças foram enviadas para o Frei Manuel do Cenáculo, em Beja2.

O local tem as seguintes coordenadas: 37º57’17”,02 latitude norte, 08º24’24”,40 longitude oeste e 56m de altitude. O acesso faz-se pelo IC1, virando-se à esquerda na primeira estrada de terra batida com palmeiras à entrada, a norte da Mimosa (sentido sul/norte).

À superfície, destaca-se a grande concentração de materiais de construção de época romana, sigillatas sudgálicas, hispânicas e norte-africanas, ânforas lusitanas (Dressel 14 e Almagro 51c), cerâmicas comuns islâmicas, medievais cristãs e modernas e faianças portuguesas, que se espalham por uma zona equivalente a cerca de 2ha (Fig. 1).

Nas cofragens das paredes de taipa da casa principal do “monte” (Fig. 2), observa-se uma grande quantidade de materiais romanos reutilizados, destacando-se os materiais de construção (tegullae, imbrices e láteres). Para além destes verifica-se a presença de sigillatas (onde se inclui um fragmento de bordo da forma Dragendorf 27), de fragmentos de bojos de ânforas e de fragmentos de cerâmica comum. A presença de uma grande quantidade de materiais de época romana nas paredes em taipa indicia que o actual “monte” foi construído sobre as estruturas da antiga uilla, verificando-se que as áreas de maior concentração de materiais se situam numa área de cerca de 2ha envolvente da construção actual, como já foi indicado anteriormente, e ainda que alguns níveis arqueológicos poderão ter sido simplesmente “rapados”, motivo por que podemos observar elementos arquitectónicos reaproveitados, bem como inscrições de época moderna.

Entre o espólio recolhido neste local ao longo dos anos destacam-se ainda os vários elementos arquitectónicos eventualmente datáveis de época tardo-romana/ visigótica, que poderão ter pertencido a um edifício religioso. Pelas informações que obtive junto do proprietário e de alguns trabalhadores mais antigos, estes são provenientes de uma antiga igreja que se situava em frente do “monte”, no local onde foi plantada uma palmeira após o incêndio que destruiu completamente o edifício religioso nos inícios do século XX, a que se sucedeu a sua completa demolição, acabando algumas peças de maior valor arquitectónico e artístico por ser reutilizadas nas estruturas do “monte”, servindo, por exemplo, de poiais.

Este local teve uma ocupação contínua, devidamente comprovada pela presença de materiais de época islâmica e pela reocupação efectuada depois da reconquista deste território pelos membros da Ordem de Santiago de Espada, que aí construíram uma igreja, a qual foi sede de paróquia até ao século XX, posteriormente substituída pela capela actualmente consagrada a Nossa Senhora do Roxo. Esta última consagração surge na cartografia antiga sob a designação de Sant’Ana ou Santa Anna (sic) do Roxo3.

Deverá trata-se, portanto, de mais uma uilla romana cristianizada e ocupada em época de dominação suevo-visigótica, que vem engrossar o grupo de uillae que continuaram ocupadas para além do século V. A tradição religiosa foi perpetuada após a reconquista cristã, aparecendo associada, juntamente com a ermida de São Roque, situada na Herdade do Faial, freguesia de Alvalade, aos topónimos de Ermidas-Aldeia e, posteriormente, Ermidas-Sado.

Marcas da cristianização do espaço: os elementos arquitectónicos

Até ao momento não são muito abundantes os elementos arquitectónicos “paleocristãos” identificados neste sítio arqueológico. No entanto, o seu estudo permite retirar algumas conclusões, com base da análise dos seus elementos decorativos, por comparação com peças equivalentes do ponto de vista tipológico e cronológico. Até ao momento, foram identificados, dois fragmentos de cancela, um friso, e um colunelo que, mais do que um simples mainel, como têm vindo a ser classificadas estas formas arquitectónicas, pode ser um pé-de-altar ou de uma mensa eucarística.

Fragmentos de possível Transenna de Iconostase

O fragmento de transenna de iconostase de maiores dimensões, a que foi atribuído o número 1 (Fig. 3), preserva, em bom estado de conservação, a sua decoração, possuindo 0,85m de altura e 0,67m de comprimento, medidas máximas, não tendo sido possível determinar a sua espessura (Feio, 2008, p. 484 a 489). Neste momento, serve de “tapete” junto à entrada da capela de Nossa Senhora do Roxo.

O segundo fragmento de cancela de iconostase, encontra-se depositado na sede da Casa do Povo de Alvalade e apresenta uma decoração composta por octofólios insertos em quadrados. Preserva 0,46m de comprimento, 0,34m de altura e 0,08m de espessura. No topo a peça está decorada com trifólios ou folhas de acanto estilizadas (Idem, ibidem).

Em média, os quadrados onde estão encaixados os octofólios que compõem a decoração principal destes elementos arquitectónicos têm 0,38m de lado. Os rectângulos têm 0,38m de comprimento e 0,24m de largura. As cartelas que separam os campos têm 0,02m de espessura, no fragmento que ainda se encontra no Monte do Roxo.

No que se encontra depositado na Casa do Povo de Alvalade, os quadrados têm 0,30m de lado.

O suporte dos fragmentos é o calcário de veios cinzentos e grão médio do tipo de São Brissos.

Os dois possíveis fragmentos da transenna, apresentam, como já foi indicado uma decoração composta por octofólios, ou “roseta de oito pétalas”, assim designada por Cruz Villalón (1985, p. 320 e 321), tem por base quatro folhas muito estilizadas dispostas nas diagonais e sobrepostas a quatro nas medianas, irradiando a partir de um botão central (Wrench, 2000, p. 646). Estas apresentam-se inscritas em quadrados e rectângulos. Trata-se de uma decoração semelhante à de um pilar recolhido em Corte Piorno, Quintos, concelho de Beja (Torres et alii, 1993, p. 69, nº 39), a pilares identificados em Marmelar (Feio, 2010) e de um pilastrim recolhido junto da Igreja de Santa Maria, em Beja. (Torres et alii, 1993). Observa-se ainda numa aduela, numa pia, numa imposta e numa pilastra encontradas em Beja (Torres et alii, 1993, p. 81, nº 49, p. 90, nº 58 e p. 95, nº 63), depositadas no Museu Regional Rainha Dona Leonor, mais exactamente no núcleo dito visigótico localizado na igreja de Santo Amaro, todas elas datadas do século VII pelos autores que as estudaram. É ainda de salientar a semelhança da decoração destas peças com algumas que pude observar em Vera Cruz de Marmelar e numa “placa” identificada no concelho de Serpa. Aliás, é com esta última que os fragmentos de transennae do Monte do Roxo mais se assemelham, não só na forma decorativa, mas também nas dimensões passíveis de comparação (exceptuando a espessura).

A peça identificada no concelho de Serpa, em local indeterminado, e depositada no museu desta cidade encontra-se completa, tendo 1,14m de comprimento, 0,84m de altura (ou largura, consoante a sua funcionalidade de transenna ou mensa) e 0,24m de espessura. Por comparação com a peça de Alvalade, esta tem mais 0,16m de espessura, apresentando nas quatro faces laterais a mesma decoração que ostenta na face principal, enquanto no fragmento mais pequeno da possível transenna do Monte do Roxo se observa uma decoração composta por trifólios, em virtude da sua menor espessura.

Quando apresentou a peça de Serpa na sua tese de mestrado, Maria Amélia Fresco de Almeida, manifestou algumas dúvidas na atribuição de funcionalidade defendendo que esta tanto poderá tratar-se de uma tampa de altar, com paralelos moçárabes em San Pedro de Rocas, ou de uma cancela de iconostase, como em Santa Catarina de Lena. Por comparação com estes dois edifícios, poder-se-ia pensar numa cronologia muito tardia, pois a igreja de Santa Catarina de Lena integra-se no pré-românico asturiano, datando de meados do século IX, embora não seja de descurar uma origem suevo-visigótica, e San Pedro de Rocas foi fundado em 573, conforme está patente na sua inscrição fundacional.

No entanto, nem a decoração destas peças é igual à de Santa Catarina de Lena, nem a fundação da igreja de San Pedro de Rocas deverá ser moçárabe. Logo, sobretudo do ponto de vista cronológico, temos de procurar descortinar uma evolução que permita afinar com mais exactidão a época em que foram concebidas as peças do Monte do Roxo, como iremos observar um pouco mais adiante.

O Friso

Uma terceira peça servia de soleira de porta numa das entradas do “monte” (Fig. 4), apresentando a face voltada para cima completamente desgastada. Noutro trabalho, propusemos tratar-se de um fragmento de transenna de iconostase, atribuição que nos foi possível rever quando nos deparámos com a ocorrência de obras no Monte do Roxo e solicitámos ao encarregado do “monte” a recolha desta peça e a sua deposição em lugar seguro, até que existisse consentimento do proprietário na sua entrega para o futuro núcleo museológico de arqueologia de Alvalade (Feio, 2008).

A peça foi retirada do local onde se encontrava no dia 09 de Fevereiro de 2008, face ao perigo de ruína do “monte” e tendo em consideração que poderia facilmente ser roubada por um qualquer caçador de tesouros (Fig. 5 e 6). Observou-se então a decoração e o tipo de peça em causa, constatando-se que o elemento arquitectónico possui uma importância significativa para uma melhor compreensão do edifício religioso que existiu neste local.Esta peça arquitectónica resulta do reaproveitamento de um possível elemento de banco, cuja cronologia podemos situar no século II (Fig. 7). Tem 1,01m de comprimento máximo preservado, 0,615m de largura máxima preservada, 0,12m espessura máxima na face decorada com peltas e bifólios, 0,08m de espessura máxima na face decorada com trifólios, devendo-se esta pequena diferença ao desgaste decorrente da passagem de pessoas durante o período em que serviu de soleira.

Da decoração de época romana podemos ainda distinguir uma ornamentação vegetalista (Figs. 8 e 9, ondulada e lisa que termina numa voluta característica dos elementos decorativos jónicos ou lésbicos, inseridos numa espécie de cimácio semicircular. No canto esquerdo do banco observam-se semi-palmetas de canto, ou grinaldas, e rosáceas com botão central.

De interesse para a arte paleocristã, pode observar-se que no lado esquerdo, quando observada a peça de frente, uma decoração composta por trifólios, possuindo no topo uma decoração cuja tipologia não foi possível determinar face ao seu desgaste. Do lado posto, existe em toda a extensão um conjunto de sete flores, com a representação bem definida do pedúnculo (ou caule); das folhas e da coroa em forma de pérola, com uma esfera ao centro. Entre as quarta e quinta flores observa-se um cesto e entre esta última e a sexta foram gravadas duas folhas.

A utilização de flores na decoração desta peça, apresenta a intenção de representação do paraíso e não é tão incomum como aparenta, até porque se trata de uma temática muito importante para os primeiros cristãos, importância essa que foi acentuada na literatura cristã dos séculos VI e VII.

Notemos que o apelativo Paraíso foi utilizado pelos cristãos para designar o local de destino dos bem-aventurados. Deriva do grego Paradeisos, palavra que foi muitas vezes aplicada para classificar o Jardim do Éden. A palavra grega significa então um grande jardim, com muitas árvores e flores maravilhosas. A sua transformação em paraíso terrestre ocorreu num período designado por judaísmo tardio, como se pode comprovar nos textos intertestamentários, com base em transformações de carácter antropológico e cosmológico. Um bom testemunho desta mudança encontramo-lo no escrito apócrifo denominado Livro dos Segredos de Henoch, ou Segundo Livro de Henoch, que transmite a ascensão do Patriarca ao Céu. Nesta ascensão o próprio patriarca refere o seguinte: «(…) Eu estive no Paraíso dos justos e lá eu vi um lugar benigno, onde todas as criaturas são benignas e todos vivem em felicidade e alegria, dentro uma luminosidade desmedida, na vida eterna (…)» (Baudry,2009, p. 220).

Para os cristãos, no paraíso existem muitas árvores, de onde se destaca a Árvore da Vida, e ainda quatro rios: um rio parte do Jardim do Éden, regando-o, dividindo-se depois em quatro braços (Génesis2, 10). Numa fase mais tardia, nomeadamente no Livro do Apocalipse, fez-se a reactualização celeste do Éden, quando lemos que «(…) O Anjo mostra-me o rio de vida, límpido como o cristal que jorra do trono de Deus e do CordeiroDe ambos os lados existem árvores (Apocalipse22, 1-2).

Lembremos o capítulo do falecimento do jovem chamado Augusto, no livro Vitae Patrum Sanctorum Emeritensis (VPSE). No seu leito de morte transmitiu ao autor das VPSE, e a outros monges, a visão que tivera do paraíso: «(…) Estive num lugar muito agradável, onde havia muitas flores odoríferas, plantas muito verdes, rosas e lírios e muitas coroas de pedras e ouro, inumeráveis panos de seda pura e uma brisa suave de aromática frescura que refrescava tudo com o seu sopro. Também vi ali inumeráveis assentos dispostos à esquerda e à direita. Mas, colocado ao centro, sobressaía um trono muito mais elevado. E ali havia um incontável número de meninos, todos engalanados e formosos, preparando mesas e um banquete extraordinário. Toda esta abundância de pratos se preparava sem recurso a qualquer animal, senão apenas com aves engordadas e tudo o que se preparava era branco como a neve (…) de tal natureza que nunca tinha comido nada assim, pelo que degustei, tomando-a com prazer. E na verdade te asseguro que o sabor daquele alimento me reconfortou de tal maneira que não desejava nada senão aquilo que havia comido. (…) Depois de ter afastado aqueles homens, o Senhor mais formoso que os demais (Jesus Cristo, nota da nossa autoria) levantou-se do trono e, tomando a minha mão, conduziu-me a um jardim extremamente agradável, onde havia um ribeiro de água cristalina e, junto a este ribeiro, muitas flores e plantas de aromas perfumados, que produziam odores suaves. (…)» (Velázquez,2008, p. 52-54).

Estas imagens que nos são transmitidas pela literatura, quer pela Bíblia, quer por outras obras de cariz religioso, como as uitae, ou as passiones encontram-se repercutidas também na arte que decora os elementos arquitectónicos dos edifícios cristãos, as laudae funerárias, os mosaicos ou a pintura mural. O friso de Alvalade do Sado encontra paralelos directos no território do antigo conuentus Pacensis. Pode observar-se a utilização de flores idênticas num pilar/pilastra de Alfundão, numa imposta de Alvito e noutra de Moura (Feio, 2010 e Feio, 2012). Este tema surge também numa imposta de San Juan de Baños de Cerrato. Podemos ainda encontrar a representação de flores no sarcófago da Sé de Braga; nas pinturas de Tróia; numa lauda funerária de Mértola e em vários mosaicos funerários do Norte de África (Feio, 2012).

Do ponto de vista cronológico, considerando que a peça de Alvito poderá datar do primeiro quartel do século VI e que o pilar de Alfundão foi por nós balizado entre finais da primeira década do século VI e inícios do século VII (Feio, 2012, p. 273), poderíamos sentir-nos tentados a datar esta peça do século VI. Contudo, desconhecendo a evolução histórica do edifício que incorporaria, em virtude deste sítio arqueológico nunca ter sido alvo de escavações arqueológicas, temos de ter em linha de conta a cronologia de outros elementos arquitectónicos. A presença de transennae de iconostase decoradas com octofólios permite-nos propor que a cronologia desta peça se situe em finais do século VI, ou inícios do século VII.

Fragmento de Colunelo ou Pé-de-Altar

Com o mesmo tipo de suporte dos fragmentos de cancela de iconostase e da imposta, foi concebido o colunelo (pé-de-altar?) (Fig. 10) que preserva 0,39m da sua altura, com o capitel e parte do fuste cilíndrico em bom estado de conservação e bem diferenciados entre si por uma espécie de “gola” (Feio, 2008, 2010 e 2012). O capitel apresenta como decoração pequenos elementos florais (folha de acanto estilizada ou trifólio), tendo 9cm de altura e 8cm de largura, percebendo-se uma certa tentativa de elaboração de um cubo. A “gola” não apresenta decoração, tem 4,5cm de altura e 7,5cm de diâmetro. O fuste é cilíndrico, sem decoração, com 25,5cm de altura e 8,5cm de diâmetro. Poderá tratar-se de um pé-de-altar ou de uma mensa ou mensula com funções eucarísticas.

Em toda a Península Ibérica conhecem-se várias dezenas de peças deste género. Infelizmente, na maior parte das vezes foram recolhidas fora do contexto original, pelo que se torna muito difícil uma atribuição de cronologia. Um exemplo mais aproximado, pode reconhecer-se num colunelo de Santa Lúcia del Trampal, Alcuéscar, Cáceres, cuja cronologia da construção da igreja se situa, muito provavelmente, apesar da controvérsia existente, em época moçárabe (Caballero Zoreda & Arce,1995, p. 198, 199 e 215, fig. 5, nº 18). Outro exemplar que pode servir de paralelo foi encontrado no território da antiga ciuitas de Pax Iulia, em Vilares de Alfundão, freguesia de Alfundão, concelho de Ferreira do Alentejo, tendo sido datado do século VII (Torreset al., 1993, p. 41, nº 11). A representação de trifólios é também observada numa peça deste género, mas designada como mainel, mais elaborada do que a identificada em Alvalade, recolhida em Santa Maria de Melque, datada do século VII ou do século VIII (Caballero Zoreda & Arce,1995, p. 199 e 200).

Para além dos exemplos supra mencionados, é idêntico a outros identificados na região. Em São João dos Azinhais, próximo do Torrão, foi identificada uma peça idêntica, mas em forma de pilastrim (com fuste paralelepipédico). Com uma decoração vegetalista trifoliada, idêntica à observada no caso do Monte do Roxo, foram identificados alguns pilarzinhos ou pilaretes deste género na catedral de Egitânia (Almeida, 1962, p. 203, figura 117 e Maciel, 2008, p. 373), cuja decoração é muito próxima. Estes poderão ter servido de pés-de-altar de uma mensa que, se não funcionou como mesa de altar, esteve associada certamente aos cerimoniais eucarísticos como mensula ou credencia, com uma cronologia próxima da de Salpensa (Sevilha), datada de 642 (Maciel, 2008. P. 373).

Proposta de cronologia para o edifício de culto cristão

Em publicação anterior propôs-se que este edifício de culto cristão tivesse sido fundado entre os séculos VII e X, com base nos materiais estudados (Feio, 2008). Os novos dados obtidos a partir da identificação do friso e a comparação com iconografia idêntica de outros edifícios da época de transição entre a Antiguidade Tardia e a Alta Idade Média, poderão permitir afinar uma pouco mais a cronologia de construção ou adaptação do edifício religioso cristão.

Habitualmente, considera-se que a decoração em octofólios inseridos em quadrados é característica do século VII, no entanto temos de ter em consideração outros pormenores, como por exemplo, associação de outros elementos decorativos que lhes estão associados, como por exemplo trifólios estilizados, peltas, tetrafólios, arcos cegos, octofólios inseridos em círculos, e ainda a associação destes com outros elementos que raramente são representados com octofólios inseridos em quadrados, como por exemplo as cruzes patadas inseridas em círculo com ou sem representação de corona. Desta forma, propomos agora que a construção deste edifício possa ter-se situado no decorrer da segunda metade do século VI, ou em inícios do século VII.

Conclusão

A falta de escavações arqueológicas no local tem impedido uma melhor definição do tipo de edifício religioso localizado sob o actual Monte do Roxo, não sendo possível determinar se se tratava de uma basílica que evoluiu a partir de um oratorium de antiga uilla, se foi uma basílica construída ex nouo junto de uma uilla ou integrada num povoado secundário, tipo uicus ou se nos encontramos perante um antigo monasterium.

Neste momento, podemos suspeitar que se trata de um edifício de culto cristão muito antigo, enquadrado na fase inicial da cristianização do território, que sobreviveu com finalidades religiosas até uma fase avançada no período de ocupação islâmica. Neste caso, teríamos uma continuidade de culto na fase de transição entre a época de dominação visigótica e o período de domínio islâmico. A religiosidade neste local viria a manter-se nos períodos baixo-medieval, moderno e contemporâneo, sob as invocações de Santa Maria do Roxo e de Santana do Roxo.

Enquanto não se realizarem escavações arqueológicas neste local não é possível determinar com maior exactidão a funcionalidade deste edifício religioso. Dessa forma, deixa-se, prudentemente, esta questão em aberto.

1O presente texto resulta de uma comunicação apresentada no congresso em homenagem a João Carlos Lázaro Faria. Não tendo sido publicadas as actas, reformulámos e actualizámos o texto para a publicação no Atlas.

2Agradeço a Luís Pedro Ramos as informações que me forneceu.

3Cf. Carta Agrícola, folha nº 188, escala 1/50 000, levantada e construída pela Direcção dos Trabalhos Agrícolas em 1888 e 1890, sob direcção de Gerardo Augusto Pery e publicada em Lisboa em 1893. É favor ver ainda a Carta Corográfica de Portugal, folha nº 31, escala 1/ 100 000, construída e gravada pela Direcção de Filipe Folque, publicada em Lisboa em 1877. Excertos destas cartas foram publicados por Fonseca Santos no articulado “Ermidas Aldeia”, inGentes e Culturas, Freguesia de Ermidas-Sado, p. 6.

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Fig. 1 – Planta de localização do Monte do Roxo e área de maior concentração de materiais à superfície (rectângulo vermelho), a partir de Feio, 2008.

Fig. 2 – Monte do Roxo, a partir de Sudeste.

Fig. 3 - Fragmento de transenna de iconostase (nº 1), localizada junto da porta da entrada da Capela de Nossa Senhora do Roxo.

Fig. 4 – Fragmento de possível imposta para arranque do arco de acesso à abside, enquanto servia de soleira na entrada do “monte” do Roxo.

Fig. 5 – Friso com decoração composta por flores, representando o Paradeisos.

Fig. 6 – Friso na sua posição original. Interpretação da iconografia utilizada na decoração do friso, com recurso à pintura (desenhado em programa autocad, sobre fotografia). Não se observam vestígios de pintura na peça original, servindo este exemplo apenas para facilitar a identificação dos signos utilizados.

Fig. 7 – Face de friso com decoração de trifólios.

Fig. 8 – Parte frontal do banco de mármore de época romana, que persistiu após reutilização nos séculos VI-VII.

Fig. 9 – Pormenor da decoração da parte superior do banco, de época romana.

Fig. 10 – Colunelo do Monte do Roxo depositado na sede da Casa do Povo de Alvalade.

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