Pedra do Patacho

Freguesia/Concelho:Vila Nova de Milfontes (Odemira)

Localização: 37°43'20.84"N; 8°47'31.52"W (C.M.P. 1:25000, Folha 544)

Cronologia: Paleolítico Superior e Mesolítico

A jazida arqueológica da Pedra do Patacho localiza-se na margem norte da foz do Mira, caindo directamente sobre o mar. A vertente litoral é baixa. Situou-se na envolvente de amplo estuário, existindo, aquando da ocupação pré-histórica, entre a jazida e a linha de costa uma planície litoral com cerca de 5 Km de largura (Soares & Tavares da Silva, 1993). O paleoestuário do Mira foi, sem dúvida, o principal factor locativo da ocupação pré-histórica. Esta parece ter abrangido a área de ca 2000 m2 e está representada por nível conquífero (Camada 2) que aflora em uma extensão de cerca de 50 metros ao longo do caminho que margina a arriba. Este nível possui, na sondagem aí realizada pelo MAEDS, cerca de 0,25 m de espessura e é constituído por areia ligeiramente concrecionada, castanho-avermelhada a castanho-acinzentada escura, embalando numerosas conchas de moluscos marinhos, alguns termoclastos de grauvaque e raros artefactos líticos,

de um modo geral reveladores de uma estratégia tecnológica macrolítica e expedita. A Camada 2 é coberta por areias eólicas, soltas e esbranquiçadas, de duna móvel (Camada 1), e assenta sobre areia branco-amarelada, ligeiramente compacta (Camada 3) resultante da desagregação de arenito dunar (Camada 4). Esta última camada sobrepõe-se a arenito mal consolidado de cor alaranjada com abundantes seixos rolados de quartzo (Camada 5); na base, nível de grandes calhaus rolados (Camada 6) que repousam sobre xistos do Carbónico Marinho.

A Camada 2 foi datada radíocarbonicamente pelo Departamento de Química do Instituto de Ciência e Engenharia Nucleares do LNETI, a partir de amostras de conchas de moluscos marinhos (Quadro 1).

Os restos faunísticos conservados na Camada 2 e no topo da Camada 3 são exclusivamente malacológicos. Ossos de mamíferos, aves e peixes estão, pois, completamente ausentes. Os moluscos que predominam são a Littorina littorea e a Patella spp.. Por ordem decrescente seguem-se o Mytillus spp. e a Serobicularia plana. Com frequências relativas muito reduzidas, ocorrem exemplares de Ostrea edulis, Cerastoderma edule e Venerupis decussata. Todos os exemplares, à excepção dos de Littorina littorea e de Patella spp., se encontram muito fragmentados. Todos os táxones citados são comestíveis. Uns são de fácies rochosa (Patella spp., Littorina littorea e Mytilus spp.), outros ocorrem em fundos de areia vasosa a ou vaso arenosa (Cerastoderma edule, Venerupis decussata e Serobicularia plana). No que se refere ao óptimo batimétrico, distribuem-se, em geral, entre o infralitoral superior e o mediolitoral: eram, pois, acessíveis ao Homem durante a baixa-mar. Os biótopos explorados poderiam ter sido exclusivamente estuarinos. A Patella vulgata, a Littorina littorea e o Mytilus spp. ocorrem também em litorais abertos, mas preferem biótopos abrigados. Assim, os ambientes de exploração preferenciais terão sido:

- Áreas rochosas, abrigadas, situadas nas margens de estuário francamente aberto às influências oceânicas (Patella vulgata, Littorina littorea, Mytillus spp. – ca. 86% da totalidade do marisco recolectado);

- Área estuarina de fundos areno-vasosos e vaso-arenosos (Cerastoderma edule, Venerupis decussata, Serobicularia plana – ca. 11% da totalidade dos invertebrados recolectados).

A Littorina littorea é uma espécie de águas frias, que pelo menos no Boreal, já não existia na Costa Sudoeste.

A elevada frequência relativa de conchas de Littorina littorea (e a ausência de Monodonta lineata e de Thais haemastoma) sugere a existência de águas frias o que está de acordo com as condições climáticas correspondentes à data obtida para a Camada 2. Com efeito, estaríamos no Dryas III, último período, frio e seco, do Tardiglaciar. Tais condições climáticas poderiam, por outro lado, explicar o valor relativamente elevado do comprimento médio das conchas de Patella. A composição faunística da Camada 2 da Pedra do Patacho parece indicar que o grupo humano que aí se estabeleceu na transição para o Epipaleolítico desenvolvia, nesse local, forte especialização económica na recolecção de moluscos. O seu território de captação de recursos estaria então, e fundamentalmente, limitado ao paleoestuário do Mira. O carácter temporário (sazonal?) do estabelecimento, pressuposto por essa especialização, é acentuado pela baixa densidade de artefactos exumados e pela tecnologia dos mesmos: indústria lítica marcadamente macrolítica e expedita. Porém, o desconhecimento, na região, de outras jazidas contemporâneas da Pedra do Patacho limita consideravelmente qualquer tentativa de reconstrução do modelo de mobilidade praticado.

Bibliografia

BREUIL, H.; ZBYSZEWSKI, G. & FRANÇA, J. C. (1946) - Contribution a l'etude des industries paleolithiques des plages quaternaires de l'Alentejo Litoral. Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, 27. Lisboa, p. 269-334.

ARAÚJO, A. C. (2003) - O Mesolítico inicial da Estremadura. In Muita gente, poucas antas?. Origens, espaços e contextos do Megalitismo. Actas do II Colóquio Internacional sobre Megalitismo (Trabalhos de Arqueologia, 25). Lisboa: Instituto Português de Arqueologia p. 101-114.

SOARES, J. (1992) - Les territorialités produites sur le litoral centresud du Portugal au cours du processus de néolithisation. Setúbal Arqueológica, , 9-10, Setúbal: MAEDS, p. 17-35.

SOARES, J. & TAVARES DA SILVA, C. (1993) - Na transição Plistocénico-Holocénico: marisqueio na Pedra do Patacho. Almadan, 2, S. 2. Almada, p. 21-29.

VIERRA, B. (1992) - Subsistence diversification and the evolution of microlithic technologies: a study of the portuguese mesolithic (Ph.D. diss). Albuquerque: University of New Mexico.

VIERRA, B. (1995) - Subsistence and Stone Tool Technology: an Old World Perspective. Anthropological Research Papers. Tempe: Arizona State University, p. 286.

ZBYSZEWSKI, G. (1943) - La classification du paléolithique ancien et la chronologie du quaternaire de Portugal en 1942. Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, 2 (2-3). Porto: Instituto de Alta Cultura.

Carlos Tavares da Silva

 

Fig. 1 – Localização da jazida arqueológica da Pedra do Patacho na Carta Militar, esc. 1:25000 (Folha 544).

Fig. 2 – Fotografia aérea da foz do Mira, com a localização (circunferência vermelha) da intervenção arqueológica na Pedra do Patacho.

 Fig. 3 – Pedra do Patacho. Perfil estratigráfico da sondagem arqueológica efectuada. A Camada 2 era um nível conquífero de origem antrópica rico em conchas de Litorina litorea. 

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