Montes de Baixo

Freguesia/Concelho:São Teotónio /Odemira

Localização:37°26'12.92"N; 8°46'49.91"W (C.M.P. 1:25000, Folha 568)

Cronologia:Mesolítico e Calcolítico

O sítio arqueológico de Montes de Baixo pertence ao concelho de Odemira e localiza-se na rechã inferior da vertente norte do troço vestibular do vale da Ribeira de Seixe, a cerca de 2km do oceano. O habitai pré-histórico implantou-se sobre o sector oriental de um patamar (glacis areno-argiloso) à cota média de 20m, sobre terrenos arenosos resultantes da desagregação de arenito dunar, e na confluência do Barranco das Covas com a Ribª de Seixe. A escolha deste local levou muito provavelmente em consideração:

Importante nascente de água potável, no Barranco das Covas, o qual limita o sítio arqueológico a oriente;

Existência de um verdadeiro mar interior (bacia de Odeceixe) que banhava o sopé da jazida;

Solos de elevada fertilidade;

Situação de abrigo em relação aos ventos dominantes do quadrante NW.

Para ocidente de Montes de Baixo, a zona húmida torna-se bastante mais restrita que a da bacia de Odeceixe.

Esse estrangulamento deve-se à substituição do substrato xistoso da bacia de Odeceixe (que parece ocupar um pequeno graben definido por falhas de direcção NE-SW) por bancada quartzítica, mais resistente à erosão. Este Horst quartzítico desenvolve-se em ambas as margens da ribeira — Canal Novo e esporão da Foz do Rio. O traçado do vale da ribeira no troço de Canal Novo, condicionado por falha que fracturou a plataforma litoral, mostra-se tambémmais rectilíneo.

Os territórios que suportaram os sucessivos grupos humanos que, em períodos mais ou menos distanciados, se estabeleceram em Montes de Baixo, durante curtas estadas, foram provavelmente distintos, mas possivelmente sempre restritos, se levarmos em consideração que aquele sítio se comportou, ao longo de toda a sua história, como um acampamento de curta duração, economicamente especializado. Terá sido quase sempre um ponto de passagem ou de trânsito e não propriamente de partida para a exploração de recursos de uma envolvente mais ou menos ampla. Esta afirmação baseia-se na pequena dimensão do habitat, na economia de curto espectro que os ecofactos revelam, na baixa densidade de artefactos.

A metodologia, relativamente padronizada, que tem vindo a ser utilizada na delimitação de territórios de captação de recursos dos estabelecimentos pré-históricos não se mostra particularmente interessante no presente caso. Embora estejamos de acordo com os princípios do método — constrangimento da distância económica na exploração de recursos e consequente redução da intensidade de exploração do meio com o aumento da distância ao estabelecimento (modelo de von Thunen) e o carácter focal da actividade humana —, os tipos padronizados do território de sítio (Higgs, 1975) explorado por caçadores-recolectores e correspondente a um círculo de 10Km de raio (mesmo na versão corrigida para a variação topográfica) (Bailey & Davidson, 1983; Wagstaflf, 1988) e do território explorado por camponeses, dotado de um raio de 5Km, correspondente a uma hora de marcha a partir do estabelecimento ocupado, não se aplicam a um estabelecimento como Montes de Baixo. Paradoxalmente, durante as ocupações mesolíticas, as evidências faunísticas revelam a exploração preferencial da bacia de Odeceixe, ou seja, as imediações do acampamento, enquanto no Calcolítico o mesmo tipo de testemunhos nos dá conta de uma exploração de recursos aquáticos mais afastados do acampamento, a cerca de 2-2,5 km, na desembocadura da Ribª de Seixe. Este facto poderá ser explicado pelo assoreamento da bacia de Odeceixe muito provavelmente a partir do Atlântico e correlativo empobrecimento da mesma em moluscos marino-estuarinos. Na ausência de informação empírica que suporte a definição do território económico das ocupações mesolíticas, deixaremos esse aspecto em aberto. Pelo contrário, procederemos a breve análise dos territórios potenciais da ocupação calcolítica, com raios de 2km e de 2,5km, na margem norte da Rib.ª de Seixe. Sabemos através do registo arqueológico que estas distâncias foram percorridas nas actividades de subsistência do grupo estacionado em Montes de Baixo. Transpondo para o passado as actuais dificuldades de atravessamento da ribeira e o seu carácter de fronteira, considerámo-la como limite meridional dos potenciais territórios de captação de recursos. Na hipótese do território com 2km de raio incluem-se os seguintes ecossistemas: fluvial propriamente dito; zona húmida adjacente, com solos aluviais de elevada fertilidade, da classe B (ca. 29 ha) e solos aluviais e coluviais da classe C (ca. 15 ha); planalto, com solos pouco férteis, da classe D e um pequeno retalho da classe C, mais adequados a floresta que à agricultura (no entanto, esses solos poderiam comportar culturas cerealíferas pouco exigentes, associadas a largos pousios); zona de elementos de vertente, a qual deve ter-se comportado somente como espaço de circulação entre o planalto e a planície aluvial e entre aquele e a praia. É na unidade geomorfológica constituída pelos elementos de vertente que se localiza a nascente de água doce que serviu Montes de Baixo. Não só o declive mas também a pobreza dos solos (classe E) eram impeditivos da prática agrícola nesta zona. Alargando o território considerado, para um raio de 2,5km, acrescenta-se parte do fosso tectónico de S. Miguel às unidades geomorfológicas referidas, ou seja, aumentam-se significativamente as potencialidades agrícolas (solos da classe B). Este segundo cenário não nos parece credível, face ao carácter temporário da ocupação calcolítica de Montes de Baixo e ao elevado acréscimo de inacessibilidade resultante do alargamento da área a explorar.

Os trabalhos arqueológicos realizados em 1986, no sítio de Montes de Baixo, inseriram-se no projecto de investigação apresentado por um dos signatários ao IPPC sobre " A transição das comunidades recolectoras e caçadoras para as de economia de produção de alimentos no Sul de Portugal". Foram motivados pela descoberta, pelos signatários, de níveis de concheiro, aflorando em um talude artificial resultante de obras de desaterro destinadas à instalação de horta e pomar Esses níveis conquíferos prometiam informação paleoeconómica e paleoecológica, particularmente escassa na região. A intervenção arqueológica, coordenada pelos signatários, foi promovida pelo Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS).

O corte estratigráfico obtido, revelou uma alternância de camadas de cor castanho-acinzentada escura e ricas em conchas de moluscos (Cs. 1A, 2 , 4 A , 4B e 6) e camadas amareladas, com abundantes blocos de arenito dunar e escassas conchas (Cs. 1B, 3 e 5) que deverão ter-se formado em fases de abandono. Por outro lado, a fauna é constituída exclusivamente por restos de invertebrados marino-estuarinos. Estão, assim, ausentes, os mamíferos, as aves e os peixes, facto igualmente observado em outros concheiros escavados pelos autores: Oliveirinha (Sines), Pedra do Patacho (Vila Nova de Milfontes), Medo Tojeiro (Almograve), Castelejo (Vila do Bispo). Tal como nestes concheiros, também em Montes de Baixo o espólio é raro ou está mesmo ausente. Estes aspectos levam-nos a pensar que o concheiro de Montes de Baixo deve corresponder à acumulação rápida de detritos resultantes de sucessivas ocupações, temporárias e pouco prolongadas, de grupos cujos alimentos de origem animal foram constituídos exclusivamente por invertebrados marino-estuarinos, associados provavelmente a alimentos vegetais que não deixaram vestígios. Em qualquer das situações observadas, é difícil conceber que esses grupos humanos se dedicassem permanentemente a uma economia tão especializada. É mais admissível pensar que só em certas épocas do ano praticassem, de modo eventualmente exclusivo, a recolecção de marisco. A sua economia seria, então, ao longo do ano, diversificada, em consonância com periódicas deslocações por toda uma área geográfica durante as quais seriam sabiamente explorados os principais recursos dos diversos ecossistemas.

De salientar a quase ausência de artefactos nas camadas inferiores e médias da nossa sondagem, facto que se explica pelo facto das mesmas se terem formado pela rápida acumulação de lixo produzido por um grupo humano muito móvel, acompanhado de escasso equipamento, que estacionou, durante curtos períodos, em zona situada imediatamente a norte da área intervencionada. Em Montes de Baixo, o local de habitat propriamente dito situar-se-ia na zona aplanada, em patamar sobranceiro ao local onde instalaram a lixeira. A superfície daquele terreno, muito erodido, recolhemos seixos de natureza petrográfica diversa, com fracturas de origem térmica e raros artefactos.

A cronologia da fundação do concheiro de Montes de Baixo, correspondente à C.6, não é, por enquanto, conhecida. As amostras disponíveis para datação pelos métodos convencionais são constituídas por conchas de ostra, material pouco adequado para datagem. No entanto, tencionamos, a curto prazo, datá-lo, já que não possuímos quaisquer artefactos provenientes das camadas inferiores. Considerando as respectivas associações faunísticas (presença de Monodonta lineata e de Thaiskemasioma) e a data 14C obtida para a C.4B, poderemos propor uma datação da transição do Boreal para o Atlântico.

Os níveis médios de Montes de Baixo (C.2, C.3, e C.4B) formaram-se durante o Atlântico através de curtas estadas de grupos mesolíticos. Obtiveram-se duas datas 14C, a partir de conchas marinhas (Patella spp.), para os extremos dessa fase (C.2 e C.4B) que corresponde à segunda metade do VII milénio cal BC (Quadro I).

A última fase da vida do concheiro encontra-se representada pela C. 1A. Esta separa-se dos níveis mesolíticos por camada de abandono (C.IB). A datação 14C obtida a partir de amostra de conchas de Monodontalineata (Quadro I) e os artefactos recolhidos, sobretudo a cerâmica, apontam para cronologia plenamente calcolítica (1ª metade do III milénio cal BC).

As camadas inferiores de Montes de Baixo não forneceram restos de organismos relevantes no que concerne à sazonalidade. Nos níveis médios e superiores, longa sequência de ocupações temporárias e de curta duração, distribuídas por um período de mais de três mil anos, parece ter persistido o mesmo padrão sazonal. As elevadas frequências relativas do género Mytilus e as grandes dimensões dos exemplares de mexilhão recolectados apontariam para estadas durante os inícios da Primavera e/ou do Outono, pois os exemplares de mexilhão de grande tamanho vivem particularmente no infralitoral superior, acessível nas marés vivas, equinociais. O ouriço do mar (Paracentrotus lividus), bom indicador de sazonalidade, permite afirmar que o local era ocupado nos inícios da Primavera. Deste equinoderme, são consumidas as gónadas, que atingem a maturidade no final do Inverno, inícios da Primavera. Embora em pequenas quantidades, essa espécie oceânica encontra-se presente nos níveis médios e superiores da sequência estratigráfica. O comportamento sazonal parece ter sido relativamente uniforme ao longo da sequência. No Mesolítico, as estadas poderiam ter sido mais curtas (quase ausência de artefactos) e a actividade marisqueira, essencial para a subsistência (a associação de moluscos, bem distribuída por Mytilus spp., Lopha stentina e Scrobicularia plana),éde mais elevado rendimento que a da camada superior e possui custos de acessibilidade/transporte menores. Quando, no Calcolítico, o local foi ocupado, perdida há muito a tradição de frequentação do sítio, os invertebrados continuaram a ser os únicos animais explorados de entre os recursos marinhos disponíveis. Porém, a recolecção, agora assente essencialmente no mexilhão, cujo nicho ecológico se encontrava a 2 km do acampamento, podia não ser a principal actividade de subsistência. A pesca, como referimos não foi documentada. Também não existem provas materiais de pastorícia. A densidade da cerâmica não aconselha a hipótese de um grupo em trânsito, como poderia ter acontecido no Mesolítico. Montes de Baixo seria um destino. Uma explicação plausível para a referida ocupação poderia residir na existência de solos férteis, aptos para culturas intensivas de Primavera (em Março plantar-se-iam, por exemplo, leguminosas, com um ciclo de desenvolvimento curto) e na abundância de água. O registo arqueológico é completamente omisso no que concerne a vestígios de origem vegetal, mas a grande especialização do leque faunístico em espécies que eram recolectadas a cerca de 2km do habitat e a localização deste nas imediações de um retalho de várzea propício à prática de culturas hortícolas, sugerem que os recursos marinhos foram subsidiários e não o factor determinante da ocupação.

Os restos faunísticos exumados em toda a sequência estratigráfica pertencem exclusivamente a invertebrados marino-estuarinos, predominando esmagadoramente as conchas de moluscos. A ausência de restos de vertebrados deve-se não a factores de ordem tafonómica, mas sim ao tipo de estratégia de subsistência que aí se praticou. O Quadro 2 apresenta os táxones identificados e a respectiva distribuição estratigráfica.

No que se refere aos moluscos, todos são comestíveis, à excepção dos pequenos gasterópodes. Os exemplares ocorrem, de um modo geral, muito fragmentados.

A frequência dos táxones representados varia ao longo da sequência estratigráfica, notando-se uma nítida diferença entre os níveis mesolíticos (Cs. 6 a 2) e o do Calcolítico ( C. 1A ) . Verifica-se, assim, que enquanto os moluscos francamente estuarinos, como a ostra e a Scrobicularia plana, ocorrem em percentagens elevadas nos níveis mesolíticos (a ostra com uma representação progressivamente decrescente ao longo da sequência, de 48,5% na C.6 a 24,7% na C.2) e baixas na camada calcolítica, pelo contrário, os moluscos marinhos como a Monodonta lineata e o Mytilus atingem as suas máximas frequências relativas na fase calcolítica. Esta observação é particularmente válida para oMytilus, moluscoque, com 16.7% na C.6, vai progressivamente ganhando importância quantitativa ao longo da sequência, para atingir 58,4% na C. 1A, quase o dobro do valor observado em C.2 (32,5%). Também com as conchas de Venerupis decussata (molusco que embora estuarino, prefere fundos mais arenosos e zonas de influência mais marcadamente oceânica do que a Scrobicularia plana) se verifica um significativo aumento percentual na C. 1A (Calcolítico). Deste modo, parece que durante o Mesolítico teria havido intensa exploração da bacia de Odeceixe; presentes também moluscos de meios rochosos, abrigados, mas fortemente influenciadas pelo oceano, situados junto da foz, ou seja, a cerca de 2 K m do habitat. Durante o Calcolítico, a zona interior do estuário perde claramente importância a favor dos meios rochosos costeiros da desembocadura da Rib.ª de Seixe. Tal mudança no sistema de exploração dos recursos pode ter resultado do assoreamento da ribeira, tendo as condições estuarinas migrado para jusante (imediações da foz, com fundos predominantemente arenosos e margens rochosas).

Ainda no que se refere às ocupações mesolíticas, é possível que tenha ocorrido uma sobreexploração dos recursos estuarinos, a qual explicaria a progressiva diminuição da frequência de ostras da C.6 à C.2. Esta razão não pode ser invocada para explicar a baixa frequência de ostras e de Scrobicularia plana na camada calcolítica, pois os três mil anos que a separam das ocupações anteriores teriam sido suficientes para a franca recuperação daqueles táxones, se as condições biogeográficas não se tivessem alterado.

O óptimo batimétrico dos táxones identificados está, de um modo geral, compreendido entre o infralitoral superior e o médio-Iitoral o que permitia fácil acesso a todos eles durante a baixa-mar.

Ao longo de toda a sequência estão presentes as espécies Monodonta lineata e Thais haemastoma. Este facto contrasta com o que se verifica na camada conquífera da Pedra do Patacho (Vila Nova de Milfontes) do Dryas recente. Neste último sítio, aquelas espécies encontram-se ausentes, sendo a Litorina littorea, gasterópode de águas frias, o molusco dominante. A associação Monodontalineata-Thais haemastoma (gasterópodes de águas temperadas/quentes) ocorre, nos depósitos conquíferos de origem antrópica da Costa Sudoeste, a partir do Atlântico. A ocorrência de Monodonta lineata, dissociada de Thais haemastoma, remonta pelo menos ao Boreal (níveis inferiores do concheiro do Castelejo, Vila do Bispo), estando, porém, ausente, como j á dissemos, na Pedra do Patacho.

As conchas do género Patella surgem em percentagens baixas em toda a sequência do concheiro de Montes de Baixo. Parece ter sido um recurso pouco apreciado ao longo da vida do estabelecimento.

Importa salientar o facto do Pollicipes cornucópia ocorrer somente na fase calcolítica. Esta constataçãopode indicar que o grupo humano que ocupou entãoMontes de Baixo se encontrava mais ligado à exploração de recursos francamente marinhos que os seus antecessores mesolíticos, mais debruçados sobre a área estuarina que banhava directamente o sopé do acampamento. Por outro lado, o aparecimento tardio (raramente mais antigo que 7000 BP) daquele crustáceo cirrípede em depósitos antrópicos da Costa Sudoeste, levanta a questão da possível sobreexploração de marisco no referido troço costeiro e da correlativa ampliação do espectro de fontes alimentares explorado, já que se trata de um crustáceo de baixo valor alimentar. Independentemente das interpretações que possam ser engendradas, é possível afirmar que o percêve entra tardiamente na dieta das populações pré-históricas da Costa Sudoeste e em posição francamente minoritária face aos restantes invertebrados.

A indústria lítica de Montes de Baixo é muito escassa e pobre quer no que respeita a investimento em matérias-primas quer em quantidade e qualidade detrabalho aplicado na manufactura dos raros artefactos aí abandonados.

Os aspectos mais interessantes que ressaltam do estudo dessa indústria decorrem da apreciação da dimensão diacrónica. Os artefactos mostram-se menos raros na camada calcolítica que nos níveis do Mesolítico, quando seria de esperar a situação inversa, pois a utensilagem em pedra lascada tende a reduzir-se, no Sudoeste, a partir do Calcolítico. Atribuímos esse facto a uma maior mobilidade e a estadas mais curtas dos grupos mesolíticos. O comportamento tecnológico que a indústria mesolítica pressupõe adapta-se à ideia de pequenos grupos de mariscadores, em deslocação, portadores de um equipamento mínimo e desenvolvendo actividades que envolviam fracos riscos e seriam pouco exigentes em termos tecnológicos. Mesmo o talhe direccionado para a produção de artefactos de ocasião, sobre matérias-primas locais, foi muito limitado.

Apesar das diferenças quantitativas observadas entre as indústrias líticas das duas grandes fases de ocupação do sítio, podemos afirmar que alguns aspectos do comportamento tecnológico permaneceram constantes ao longo de toda a sequência estratigráfica. Grupos pertencentes a contextos económico-sociais tão distintos como os do Mesolítico e do Calcolítico desenvolveram perante situação semelhante, estratégias idênticas. Este aspecto afigura-se-nos crucial para se compreender a transversalidade dos instrumentos líticos de ocasião, frequentemente macrolítícos, a que alguns autores tendem a atribuir cronologias altas, inspirados pelo seu arcaísmo, perspectivados por evolucionismo progressivista e baseando-se em metodologias de recolha e tratamento da informação inadequadas. Aqueles artefactos são, como se constata claramente em Montes de Baixo, recorrentes e integram um sub-sistema tecnológico próprio, adaptado a situações/funções de grande mobilidade e de fracas exigências tecnológicas.

Por deficiente enquadramento teórico, os chamados conjuntos macrolítícos têm sido sub-valorizados ou mesmo silenciados quando ocupam posições minoritárias na globalidade da indústria lítica (veja-se, por exemplo, para o Mesolítico, os casos de Moita do Sebastião e Cabeço da Amoreira) e sobrevalorizados quando são dominantes e as análises tiveram por base recolhas de superfície, as quais não permitiam observar micro-utensilagem (vejam-se, por exemplo, os numerosos artigos publicados sobre o chamado Mirense).

As indústrias líticas pré-históricas que temos vindo a analisar na Costa Sudoeste mostram frequentemente a coexistência de dois grandes subsistemas tecnológicos: o expedito (STE), já referido e um outro, aberto à integração de inovações, tecnologicamente mais complexo, que requer matérias-primas siliciosas, micro-cristalinas, de grande qualidade como o chert e o sílex (os quais em situações de escassez podem ser substituídos pelo quartzo leitoso), destinados à manufactura de utensílios com uma taxa de rejeição muito mais baixa que a dos instrumentos do STE e que por essa razão designámos de uso-intensivo. O subsistema tecnológico uso intensivo (STI) encontra-se, obviamente, ao serviço de actividades que requerem mais perícia e envolvem maiores riscos. Face às suas exigências em matérias-primas e manufactura, encontra nos locais de habitat mais estabilizados a sua sede privilegiada. Integrável no STI, possuímos de Montes de Baixo apenas dois artefactos, ambos provenientes da C. 1A , do Calcolítico. A lâmina estreita, de excelente debitagem, em sílex da região de Sagres, coloca a problemática da circulação do sílex durante a Pré-história no Alentejo litoral, região onde aquela matéria-prima é muito rara. Seriam os acampamentos especializados no marisqueio a face visível da via ou percurso do sílex algarvio?

Na região do Cabo de S. Vicente-Víla do Bispo regista-se a presença de calcário dolomítico, com nódulos de sílex, assente sobre o complexo margo-carbonatado de Silves (Rocha, 1976). O sílex é abundante e a sua exploração poderia ser realizada a céu aberto, nos afloramentos mais ricos. No entanto, por agora, quase nada sabemos sobre a exploração dessa matéria-prima, da maior importância para as economias pré-históricas.

As características morfotécnicas do conjunto cerâmico induzem-nos a colocá-lo nos inícios doCalcolítico do Sudoeste. O melhor indicador cronológico encontra-se representado pelo recipiente com decoração de triângulos sublinhados por pontuações, decoração característica do período acima referido e com paralelos na cerâmica do Possanco (Comporta). Se o carácter vestigial da taça carenada pode ser explicado por razões cronológicas, a ausência do prato de bordo almendrado face à cronologia proposta para o conjunto, poderá ter uma leitura ancorada no carácter funcional do sítio, pois encontramo-nos perante um estabelecimento de curta duração, economicamente especializado, e a referida forma aparece associada a economias de base essencialmente cerealífera. Se os dados faunísticos apontam para uma dieta rica em invertebrados marino-estuarinos, a densidade relativamente elevada de cerâmica e as suas características morfológicas em que são abundantes as formas altas (sublinhe-se que a taça emcalote alta, o esférico e o globular representam 31,2% da totalidade do conjunto) são coerentes com o processamento de alimentos vegetais de tipo hortícola (caldos).

A cerâmica industrial, constituída por nove fragmentos de crescentes, reforça a atribuição ao Calcolítico da ocupação humana correspondente à C. 1A. Três exemplares conservam as extremidades; em cada uma delas existe perfuração subcilíndrica. Os restantes seis exemplares são fragmentos mesiais.

A informação fornecida pelo depósito conquífero de Montes de Baixo, complementada por dados recolhidos em outros concheiros, permitiram realizar uma primeira abordagem sobre as adaptações costeiras no Sudoeste Português, entre Sines e o Cabo de S. Vicente, durante o Holocénico.

Bibliografia

TAVARES DA SILVA, C. & SOARES, J. (1997) – Economias Costeiras na Pré-História do Sudoeste Português. O Concheiro de Montes de Baixo. Setúbal Arqueológica, 11-12, p. 69-108.

Carlos Tavares da Silva

Joaquina Soares

 

Fig. 1 – Localização do concheiro de Montes de Baixo em mapa na escala 1:25 000.

Fig. 2 - Localização do concheiro de Montes de Baixo em mapa satélite Google Earth.

 Fig. 3 – Territórios potenciais de exploração de recursos da ocupação calcolítica de Montes de Baixo, com 2 km e 2,5km de raio, distância que era percorrida pelo grupo até à foz da Ribeira de Seixe, onde praticou a recolecção de moluscos. A Ribeira foi considerada o limite meridional desses territórios, em atenção à actual dificuldade do seu atravessamento e seu carácter de fronteira. 1 – Planície aluvial da Ribeira de Seixe (solos da classe B); 2 – solos da classe C; 3 – solos da classe D (exceptuando uma pequena área de vertente, correspondem maioritariamente ao planalto); 4 – elementos de vertente (solos da classe E); 5 – mancha de solos das classes C+D; 6 – mancha de solos das classes D+E; 7 – Ribeira de Seixe; 8 – sítio arqueológico. Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

 Fig. 4 – Aspecto do sítio arqueológico, visto da Ribª de Seixe, 1986.

 Fig. 5 – Localização do corte estratigráfico. O limite oriental do sítio é constituído pelo Barranco das Covas, onde se localiza importante nascente de água potável.

 Fig. 6 – Estratigrafia de Montes de Baixo. Perfil norte dos quadrados N-T/7. Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

 Fig. 7 – Estratigrafia de Montes de Baixo. Perfil oeste dos quadrados N6-7. Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

 Fig. 8 – Datas 14C de Montes de Baixo. Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

Fig. 9 – Restos faunísticos de Montes de Baixo (valores médios de amostras de 10 litros de sedimentos, por camada e por m2). Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

Fig. 10 – Montes de Baixo. Recipientes cerâmicos: pratos de bordo simples (1-5); taças de bordo espessado (6-8); taças carenadas (9-12); taças de bordo simples (13-21). Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

 Fig. 11 – Montes de Baixo. Recipientes cerâmicos: taças de bordo simples (1-9); esféricos altos (10-11). Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

Fig. 12 – Montes de Baixo. Recipientes cerâmicos: esféricos altos (1-6); globular (7); fundo plano (8) vaso bitroncocónico com decoraçãoo simbólica (9); crescentes (10-15). Seg. Tavares da Silva & Soares, 1997.

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