Rocha da Hera

Freguesia/Concelho: UF Santa Maria e S. Salvador (Odemira)

Localização: 37º36’28,17’’N 8º33’23,80’’O (C.M.P. 1:25.000, Folha 553)

Cronologia: Idade do Bronze

O abrigo da Rocha da Hera é uma pequena gruta, em cujo interior existem delicadas figuras de arte rupestre. É o único registo do género conhecido no sudoeste do país. As gravuras são extremamente frágeis, não devem ser tocadas para que não se deteriorem.

Rocha de Hera é o nome dado a uma parede vertical de xisto, com altura de cinco metros a prumo, que se desenvolve ao longo de vinte metros na margem esquerda do barranco da Tamanqueira (Fig. 1). Como o nome do local alude, a rocha está coberta por uma velha hera (hedera helix), planta arbustiva espontânea e autóctone de grande longevidade, própria de ambientes húmidos e pouco ensolarados. O sítio é sombrio, voltado a norte, no fundo do vale muito fechado da Tamanqueira, escondido no ambiente de penumbra da frondosa galeria ripícola (Fig. 2).

A meio da parede de rocha, semioculta pela cortina de hera e nunca iluminada directamente pela luz solar, existe uma cavidade com forma concoidal, com dimensões de dois metros de profundidade, metro e meio de largura e dois de altura. A sua origem é geológica, cavada por lenta erosão fluvial. A abertura deste abrigo, voltada a norte, tem o aspecto de um fenda em forma de losango vertical e situa-se um metro acima da base da parede de rocha e outro tanto do leito do Barranco da Tamanqueira, o suficiente para que não seja inundado pelas cheias torrenciais do ribeiro (Fig. 3). O acesso às gravuras obriga, assim, a alguma dificuldade no acesso, uma vez que é necessário ultrapassar sucessivos obstáculos: transpor a ribeira ou caminhar ao longo da margem, encontrar o local, escalar um pouco a parede de rocha para entrar na fenda e, uma vez dentro desta, descortinar as pequenas gravuras e, por fim, encontrar posição menos incomoda nas desconfortáveis superfícies de xisto do interior para conseguir a sua visualização (Figs. 4, 5, 6).

Uma vez no interior do abrigo, com o olhar habituado à penumbra (Fig. 7), podem-se contemplar os finos traços filiformes, gravados nas superfícies lisas de xisto do fundo do tecto e da parede do lado poente, com instrumento de rocha dura aguçada ou ponta metálica. Ao centro da parte mais recuada do tecto, distingue-se claramente entre um emaranhado de linhas e desenhos geométricos (círculos, espirais) uma nítida figura humana com cabeça feita por punção e membros abertos com extremidades em tipo «pé-de-galinha», que parece flutuar na rocha (Fig. 8). Alguns decímetros à sua esquerda, numa saliência, outra figura antropomórfica isolada, igualmente de tipo esquemático-linear, possivelmente com resguardo na cabeça (Fig. 9). Na parede oeste, onde existem mais sulcos finos de tendência linear, identifica-se uma figura cruciforme, também com a extremidade inferior rematada em linhas divergentes (Fig. 10).

A arte rupestre esquemático-linear é característica da Pré-história Recente da parte meridional do continente europeu e caracteriza-se pela técnica de fina incisão filiforme, ou puncionada, com utensílio de ponta aguçada, sobre os painéis rochosos. São representações de tendência geométrica, normalmente não figurativas, mas onde surgem, por vezes, figurações animais ou humanas. Estas últimas têm frequentemente as extremidades dos membros superiores e inferiores desenhadas em linhas divergentes, ou seja, em forma de leque ou «pé de galinha».

Existem paralelos no sudoeste peninsular para a arte rupestre da Rocha da Hera, nomeadamente no médio Guadiana, em Molino de Manzánez (Cheles) ou Agualta (Mourão), cuja cronologia é atribuída desde o Calcolítico à Proto-história. Encontram-se sempre em suportes rochosos expostos ao ar livre, mas não em cavidade, como neste caso de Odemira. Aliás, nos xistos brandos da Formação do Mira, a preservação das figuras da Rocha da hera deve-se quase certamente à sua localização no ambiente estável no interior do abrigo, protegidas da erosão atmosférica e química. Também em suportes cerâmicos existem figurações parecidas aos antropomorfos de Rocha da Hera, como são os casos de um peso de tear decorado do povoado calcolítico de Perdigões (Reguengos de Monsaraz), do 3.º milénio a.C., ou de um vaso de Camiño de la Cárcavas (Madrid), datado da fase de transição do Bronze Final à Idade do Ferro (séc. VIII-VII a.C.). A cronologia dos casos referidos parece estender-se, portanto, do Calcolítico à Proto-história.

A cercania da Rocha da Hera a necrópoles da Idade do Bronze, como Mesas, situada a apenas 200 m no topo do cerro em cuja vertente norte está o abrigo, e Cemitério dos Moiros do Cerro do Ferreiros (aprox. 1 km a noroeste), bem como ao grande povoado do Cerro do Castelo de Vale Feixe, induzem a pensar que estas gravuras rupestres, de difícil e problemática datação, poderão igualmente ter sido feitas no 2.º milénio a.C.

Essa relação entre o abrigo com arte rupestre e as necrópoles da Idade do Bronze pode ter sido mais do que simples proximidade espacial. O abrigo pode ter sido utilizado como local de descarnação de cadáveres, antes da sua deposição, já em estado esquelético, nas necrópoles referidas. A posição das figuras do tecto parece ter sido mais adequada para visualização em posição horizontal, deitado, sobre um estrado. Existem pequenas cavidade nas paredes laterais do interior do abrigo que se prestam a ser utilizadas para inserção de toros de madeira para suporte de uma estrutura desse tipo, por exemplo. As próprias figuras antropomórficas, feitas com traços paralelos, sugerem mais o esqueleto do que a compleição cárnea do corpo. A situação oculta e lúgubre do abrigo, escondido no fundo de um vale muito fechado e profundo e, sobretudo, a sua peculiar fisionomia uterina, fazem pensar numa sacralidade do lugar relacionado com as crenças funerárias (Figs. 11, 12 e 13). É conhecida a utilização funerária de grutas em toda a Península, durante a Pré-história Recente, e com particular relevo durante a Idade do Bronze. Pelo contrário, são mal conhecidos os rituais e formas de sepultamento do Bronze Final do Sudoeste. A hipótese da esqueletização de corpos no interior do abrigo da Rocha da Hera, previamente ao seu sepultamento noutros locais, parece ganhar viabilidade em práticas funerárias similares recentemente documentadas da Idade do Bronze Final do centro da Península: foi determinado, por análise bioantropológica, que indivíduos enterrados com conexões anatómicas parciais (portanto, antes de finalizado o processo de decomposição) estiveram antes expostos aos elementos atmosféricos e a roeduras de canídeos, entre seis meses a um ano.

Como em muitos outros sítios arqueológicos do concelho de Odemira, existe uma lenda tópica sobre a Rocha da Hera, similar à contada em outros locais de acesso ao mundo subterrâneo dispersos pelo vale do Mira, até Almodôvar. A sua origem é inexplicável. Um bordo de dollium de cronologia romana ou alto-medieval achado no local aponta para uma frequência da área da Rocha da Hera muito tempo passado depois das gravações pré/proto-históricas. A teologia do cristianismo primitivo causou a frequentação ascética e eremítica de grutas e cavidades relacionadas com o deserto, com a confrontação com o demónio, com a obscuridade e com a morte. Talvez se possa relacionar com isso a gravura da cruz presente no interior do abrigo (Fig. 10). Antes da implantação definitiva do cristianismo, a litolatria e fisiolatria das religiões pré-cristãs parecem também ter privilegiado o contacto com o numinoso através do incubatio em contextos ctónicos, nomeadamente cavidades rochosas. Na Antiguidade, as cavidades simbolizam também o útero da terra, local de nascimento de deuses, incluindo o messias da religião cristã.

Bibliografia:

VILHENA, J. & ALVES, L. B. (2008) - Subir à maior altura: espaços funerários, lugares do quotidiano e ‘arte rupestre’ no contexto da Idade do Bronze do Médio/Baixo Mira. Actas do III Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular (Vipasca. Arqueologia e História, 2). Aljustrel, p. 194-218.

VILHENA, J. (2014) - Acupunctura em Odemira: dois séculos de arqueologia. In P. Prista (coord.), Ignorância e Esquecimento em Odemira. Odemira: Município de Odemira.

Webgrafia:

http://www.lendarium.org/narrative/a-moira-da-rocha-da-hera

Jorge Vilhena

Fig. 1 – Rocha da Hera, vista geral de norte.

 

Fig. 2 – Galeria ripícola do Barranco da Tamanqueira, no troço da Rocha da Hera.

Fig. 3 – Vista frontal do abrigo com arte rupestre no interior da Rocha da Hera.

 

 

Fig. 4 – Forma de acesso ao interior do abrigo da Rocha da Hera.

 

Fig. 5 – Aspecto geral do interior do abrigo da Rocha da Hera, com luminosidade natural.

 

Fig. 6 - Aspecto geral do interior do abrigo da Rocha da Hera, com iluminação artificial.

Fig. 7 – Tecto do abrigo da Rocha da Hera; figuras filiformes com luz natural.

 

Fig. 8 – Painel central do abrigo da Rocha da Hera; figuras filiformes iluminadas com luz artificial rasante.

 

Fig. 9 – Figura antropomórfica do lado leste do painel central do abrigo da Rocha da Hera (com iluminação artificial).

 

Fig. 10 – Motivo cruciforme do painel oeste do abrigo da Rocha da Hera (com iluminação artificial).

 

 

 Fig. 11 – Localização do abrigo da Rocha da Hera no fundo do vale da Tamanqueira (à direita na imagem).

 

 

Fig. 12 – Aspecto exterior da abertura de entrada no abrigo rupestre da Rocha da Hera.

 

Fig. 13 – Vista para o exterior desde o interior do abrigo rupestre da Rocha da Hera.

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