Cerro das Alminhas

Freguesia/Concelho: S. Martinho das Amoreiras (Odemira)

Localização: 37°33'45.0"N; 8°20'45.5"W (C.M.P. 1:25000, Folha 562)

Cronologia: Bronze Final

O Cerro das Alminhas, na herdade da Sarnadinha, é um povoado da Idade do Bronze final. O cerro é apenas mais uma das muitas elevações que na zona serrana de S. Martinho bordejam o Mira, neste sector submerso pela albufeira da barragem de Santa Clara. Situa-se sobre uma antiga zona de travessia do rio, onde actualmente passa a Estrada Municipal 503, entre S. Martinho das Amoreiras e Santana da Serra, via que transpõe, através de ponte, a albufeira transformada em área de lazer, com campismo, amarração de embarcações de recreio e pesca lúdica. A estrada dá também acesso directo ao Cerro das Alminhas, ao passar na vertente norte da elevação onde está este antigo povoado.

De impacte actualmente mais discreto devido ao enchimento do vale em 30 metros pelas águas do lago artificial, originalmente o Cerro das Alminhas era um cabeço bem mais destacado sobre o rio Mira, acima do qual se elevava em mais de 90 metros. Tem a típica configuração de esporão elevado sobre o vale, ladeado por córregos profundos e com acesso condicionado por um único lado mais estreito, típico dos povoados de altura proto-históricos, que usam a topografia para incrementar as características de isolamento e de defesa.

No topo aplanado do cerro, em dois núcleos descontínuos, existem artefactos arqueológicos deixados pela única fase de ocupação do sítio: no lado sul, voltado ao rio, com vestígios mais ténues (mós, seixos e clastos de quartzo e quartzito, escassa cerâmica), e no extremo noroeste, na zona de entrada, onde a meio da vertente foi construído um grande terraço de contorno semicircular (c. 500 m2) sobre um talude artificial, chamado pelos locais de Eira dos Moiros. Os terraços artificiais são comuns em povoados de altura da Idade do Bronze, como no Cerro do Castelo de Vale Feixe (Odemira) ou El Trastejón (Aracena, Huelva), e mais do que estruturas defensivas, constituíam plataformas de ocupação sobressalientes nas vertentes, ou bastiões de complemento a recintos de muralhas. Efectivamente, o terraço do Cerro das Alminhas, voltado a noroeste, domina o acesso mais fácil ao interior do sítio, incrementando o desnível da vertente natural. Contudo, o terraço poderia ser flanqueado por sul ou por norte, onde o talude não tem continuidade, ou não se conservou. O Cerro das Alminhas não tem, portanto, um recinto completamente fechado por muralha ou talude, pelo que não é absolutamente exacto classificá-lo de povoado fortificado, excepto se uma eventual cerca, actualmente não perceptível no terreno, tenha sido feita com estruturas perecíveis, como seria uma paliçada de madeira, cuja presença não foi detectada ainda.

Desde logo a primeira impressão que fica ao visitante que se aproxime do terraço da Eira dos Mouros do Cerro das Alminhas é a grande mancha de dispersão por todo o talude de blocos de grauvaque ruborizados, deformados por calor ou num estado de mutação para material pómice intensamente vitrificado, com textura vesicular e superfície escorificada. As suas tonalidades foram alteradas para violeta e roxo brilhante (xistos) ou tons metálicos cinzentos (grauvaques). Estas pedras vitrificadas, que se conhecem também nos povoados ribeirinhos do Castro da Cola (Ourique, 4 km a montante do Cerro das Alminhas) ou na Cidade da Rocha (5 km a jusante), são aqui designadas de pedras leves, devido à particularidade de terem flutuabilidade, e foram recolhidas desde há muito para uso como pedra-pomes. Esta extracção continuada das pedras vitrificadas reduziu a altura original do talude do terraço.

A escavação arqueológica, em 2001, do talude das pedras leves permitiu documentar o interior da estrutura do terraço artificial. Este foi construído com grandes lajes de pedra local justapostas, ligadas com argila vermelha, que constituiriam uma parede rampeada e de contorno curvo, de cuja face voltada ao exterior apenas se encontrou a fiada de base.

No cerne do terraço, a escavação mostrou a presença de dois veios de material vitrificado, rectilíneos e perpendiculares à face do terraço, de material pétreo e concreções terrosas, que são o ponto de origem das pedras vitrificadas. Muito provavelmente, estes veios correspondem a antigos toros ou traves originalmente inseridas na estrutura de pedra do terraço, cuja combustão extensa, em ambiente redutor privado de oxigénio e a temperaturas acima de 800/900º C, com picos de 1200ºC possibilitados por reacções químicas (exalação e combustão de álcool e hidrogénio), produziram processos exotérmicos que originaram a fusão parcial e vitrificação das pedras e argilas imediatamente envolventes.

No topo da plataforma artificial constituída pelo terraço, encontraram-se alinhamentos de lajes fincadas, possivelmente de bases de paredes de cabanas e, entre grandes lajes de um pavimento, uma segunda mancha, desta feita de contorno circular, de material pétreo vitrificado. O significado desta última mancha de pedras vitrificadas é desconhecida, uma vez que não foi possível prosseguir a escavação. Pode corresponder ao ponto de inserção da base de um grande poste vertical que ardeu violentamente, ou a uma pequena fornalha.

Os achados de escavação resumem-se a vários elementos moventes e dormentes de mós de vaivém (a maioria de pedras de sienito oriundo da serra de Monchique, a 50 km, testemunhos de uma rede regional de abastecimento de mós) para uso na moagem e trituração de alimentos e minerais, e fragmentos cerâmicos de fabrico local. Todas as cerâmicas foram montadas sem uso de torno de oleiro e finalizadas com acabamentos grosseiros, sem decoração. As formas são maioritariamente fechadas: pequenos potes de perfil recto ou troncocónicos e grandes contentores globulares, de fundos planos ou convexos; taças e tigelas de paredes carenadas ou curvas e bordos reentrantes. Destaca-se apenas uma grande taça de carena alta com muito bom acabamento da superfície brunida.

O conjunto mostra uma cultura material pouco desenvolvida, caracterizada por arcaísmo dos objectos cerâmicos (que pode induzir a um erro de excesso de atribuição de antiguidade). Os objectos abandonados no local pelos poucos habitantes do Cerro das Alminhas resumiam-se, portanto, a algumas mós e a loiças de uso comum, grandes recipientes para armazenamento ou processamento de líquidos e alimentos, a par dos pequenos potes, de taças e tigelas para consumo.

As formas e fabricos das cerâmicas são similares a outros contextos do Sudoeste Peninsular datados do Bronze Final pré-colonial, ou seja, do período entre 1200 e 900 a.C.

Com essa cronologia, o Cerro das Alminhas poderá ser um dos mais antigos sítios conhecidos na Península Ibérica com vitrificação de muros.

Bibliografia:

VILHENA, J. (2008) - As pedras lisas. Mós e moagem de cereais da Pré-história à Idade Média. In J. VILHENA, A. M. QUARESMA, A. T. GONÇALVES, A moagem de cereais em Odemira. Da Pré-história à actualidade, 3 vol.. Odemira: Município de Odemira.

VILHENA, J. (2014) - Acupunctura em Odemira: dois séculos de Arqueologia. In P. PRISTA (coord.), Ignorância e Esquecimento em Odemira. Odemira: Município de Odemira.

VILHENA, J. & GONÇALVES, M. (2011) - Muralhas revestidas de cobre. Rochas vitrificadas em povoados do Bronze Final do Sudoeste. InJ. JIMÉNEZ ÁVILA (ed.), Sidereum Ana II: El río Guadiana en el Bronce Final (Anejos de Archivo Español de Arqueología, 62). Mérida/Madrid: Instituto de Arqueología de Mérida, p. 517-554.

 Jorge Vilhena

 

Fig. 1 – Vista geral de Cerro das Alminhas, povoado sobre um dos inúmeros cabeços da serra de S. Martinho.

Fig. 2 – Flanco norte do Cerro das Alminhas.

Fig. 3 – Fotomontagem do lado sul de Cerro das Alminhas.

Fig. 4a – Domínio visual de Cerro das Alminhas sobre o vale do Mira, a poente (jusante).

Fig. 4b – Domínio visual de Cerro das Alminhas sobre o vale do Mira, a nascente (montante), com Castro da Cola ao fundo (a 5 km).

Fig. 5 – Lado norte do Cerro das Alminhas.

Fig. 6 – Bloco de grauvaque fracturado e deformado por aquecimento intenso de Cerro das Alminhas

Fig. 7 – Secção de bloco de grauvaque vitrificado de Cerro das Alminhas, com mutação para pedra-pomes.

Fig. 8 – Pormenor de textura vesicular no cerne de bloco vitrificado de grauvaque do Cerro das Alminhas

Fig. 9 – Aspecto da superfície do talude do terraço artificial de Cerro das Alminhas (2001).

Fig. 10 – Face do terraço artificial do Cerro das Alminhas (escavação de 2001).

Fig. 11 – Veio de material lítico vitrificado no cerne do terraço de Cerro das Alminhas (escavação de 2001).

Figs. 12A e B – Formas de recipientes cerâmicos de Cerro das Alminhas.

Fig. 13 – Fragmento de bordo de grande tigela de carena alta de Cerro das Alminhas.

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