Maceirinha e Arcaçoila

Freguesia/Concelho: S. Luís (Odemira)

Localização:

Maceirinha - 37°38'43.30"N; 8°38'56.90"W (C.M.P. 1:25.000, Folha 553)

Arcaçoila - 37º39’12,00’’ N; 8º38’02,90’’ W (C.M.P. 1:25.000, Folha 553)

Cronologia: Idade do Ferro

As rochas insculpidas de Maceirinha e Arcaçoila situam-se próximo uma da outra, a 1500 m de distância em linha recta, de ambos os lados da E.N. 120, estrada moderna cuja origem estará num dos antigo caminhos de acesso à vila de Odemira e ao seu porto marítimo-fluvial, importantes na Idade do Ferro, e ao primeiro vau do estuário do Mira. Estão também relativamente próximas de dois povoados de altura, provavelmente fortificados, da Idade do Ferro: a Maceirinha quase à sombra do Cerro Telhado, e a Arcaçoila entre este último e o Cerro do Castelo de Vale de Gaios.

Tanto na Maceirinha como na Arcaçoila existem afloramentos rochosos com cavidades insculpidas por entalhes artificiais, que formam pias, bacias, cavidades quadrangulares e tanques, interligados por estreitos canais em sulcos abertos nas superfícies pétreas (nota importante: a visita deverá começar pela Maceirinha, de forma a poder ter de seguida uma melhor legibilidade e compreensão da rocha da Arcaçoila).

Ambas as rochas fazem parte da geologia meta-vulcânica da área de S. Luís. São afloramentos e batólitos de felsito quase branco, cujas superfícies, lisas e onduladas, reflectem de forma surpreendente a luz solar rasante, dando um efeito arrebatador e de grande realce às cavidades e sulcos neles insculpidos, especialmente ao início ou ao final do dia, sobretudo quando as rochas se encontram molhadas pela chuva. Além disso, ambos os locais (em especial Maceirinha) estão em vales de particular encanto natural, semeados de rochedos esbranquiçados, daqueles locais inebriantes que se diriam propícios a manifestações de culto e do sagrado.

As rochas são de textura granulosa, relativamente fáceis de escavar e cinzelar. É bastante plausível que algumas das cavidades menores e sulcos sejam de origem natural, formadas pela acção erosiva muito lenta (meteórica e química) da água da chuva, que flui sobre as pequenas irregularidades da superfície das rochas. Desta maneira, a pluviosidade desempenha uma função formativa e expansiva de pequenos canais de circulação da água e de cavidades de fundo liso, por vezes originando mesmo lóbulos de pequenas pias unidas por coalescência.

Este fenómeno natural foi certamente notado e valorizado pelas comunidades do passado pré e proto-histórico, que terão adaptado tais ocorrências naturais, situadas em locais de destaque geológico e paisagístico, para nelas concretizar pequenas estruturas escavadas na rocha, que actualmente se interpretam como sítios de manifestação de culto religioso. Provavelmente, a realização de cultos nestes locais, com origem em tempos pré-romanos, perduraram até aos alvores da Idade Média.

Assim, nos afloramentos da Maceirinha e da Arcaçoila observam-se, a cotas diversas desde o topo das superfícies ondeadas das rochas, várias cavidades artificiais, de morfologia circular e quadrada (estas últimas, indubitavelmente de realização humana), interligadas por uma rede de pequenos sulcos naturais ou escavados. Em plano inferior, existem, na periferia de ambos os afloramentos, tanques maiores igualmente escavados na rocha, de forma rectangular, com eixo maior alinhado a norte-sul e, no caso da Maceirinha, com rebordos bem definidos em moldura. Estes tanques são a razão dos nomes dos dois locais: Arcaçoila de «arca pequena», Maceirinha também diminutivo de «maceira» ou «masseira», que era um recipiente rectangular utilizado tradicionalmente para dar de comer aos animais, ou um tabuleiro ou caixa rectangular onde se amassava a massa para pão.

Qualquer líquido despejado sobre as superfícies onduladas das rochas, como água, mas também, por exemplo, leite, vinho ou sangue (contra o fundo branco das rochas, o efeito visual de um líquido colorido seria mais realçado), escorre até encontrar um sulco que o faz desaguar numa cavidade, da qual, uma vez cheia, irá de novo escorrer por outro canal que o conduz a uma segunda cavidade situada um pouco mais abaixo, e assim sucessivamente. O percurso do líquido termina num dos grandes tanques de formato rectangular ou embebido no solo na borda dos afloramentos.

As rochas da Maceirinha e da Arcaçoila enquadram-se na categoria dos santuários ou altares rupestres rurais de tipo «céltico» conhecidos no Ocidente da Península Ibérica, com maior concentração no Noroeste. No Sul de Portugal, os casos mais próximos de Odemira situam-se na zona de Elvas - Alandroal - Monsaraz. Têm expoente máximo no célebre e imponente santuário de Panóias de Valnogueira (Vila Real de Trás-os-Montes). Neste sítio, de escala e monumentalidade muito superior a todos os outros, inscrições rupestres em latim (e uma em grego e latim), datadas de finais do século II ou começos do III d.C., gravadas em grandes afloramentos graníticos que igualmente têm tanques, cavidades de formato rectangular e pias artificiais, reúnem dedicatórias a deuses dos panteões indígena pré-romano, romano e oriental. Particularmente útil para a compreensão do papel dos tanques e cavidades deste tipo de santuários, as referidas inscrições de Panóias também instruíam os celebrantes acerca das cerimónias a desenvolver no local. Numa delas lê-se, segundo a tradução de G. Alföldy para português actual:

Aos deuses e às deusas deste espaço consagrado. As vítimas que caem mortas, aqui são imoladas. As entranhas são queimadas dentro dos reservatórios quadrangulares que se encontram em frente. O sangue derrama-se sobre os pequenos lagos próximos. Gaio C. Calpúrnio Rufino.

É admissível extrapolar a informação desta epígrafe de Panóias aos demais altares rupestres peninsulares que apresentam similares composições de estruturas escavadas na rocha, em forma de covinhas e pias (chamados em latim de laciculi ou foculus), cavidades quadrangulares (quadrata) e tanques rupestres (lacus), como sucede na Macerinha e Arcaçoila. Desta maneira, ambas se interpretam igualmente como antigos conjuntos de recipientes rupestres de funcionalidade ritual. E, assim, pode-se ter uma ideia aproximada das cerimónias que ali se realizariam no passado.

A par de simples libações e abluções com água nas cavidades (foculus) ligadas por canais de escoamento e circulação de líquidos, também se praticariam rituais de sacrifício, purificação e iniciação, com imolação de animais (ovicaprinos, bovinos e suínos) e até, excepcionalmente, de vítimas humanas. Dos despojos dessas vítimas, seriam consumidos ritualmente a carne dos animais, vertidos os seus fluidos sanguíneos e incineradas as vísceras em cavidades específicas, como os tanques rectangulares maiores. Todas as cerimónias seriam pré-determinadas por liturgias mais ou menos regradas, como a inscrição de Panoias parece indicar. No final, o celebrante ou iniciado deveria limpar-se e purificar do sangue, gordura e fumo com que se sujara durante os sucessivos passos da cerimónia, com uso de água santificada.

A água, fertilizadora, também foi cultuada no Ocidente Peninsular na forma de divindades próprias (por ex. Nabia, Mirobeus). Na Maceirinha, existe a antiga fonte de mergulho, que talvez fosse associada à rocha insculpida. Desconhece-se se esta fonte verte águas com qualidades tidas na tradição por salutíferas, mas ela situa-se em zona de mananciais muito mineralizados (existe um filão de minérios ferro e manganês no local), e às águas hidrominerais foram, e são, frequentemente atribuídas propriedades terapêuticas. Além disso, a limpeza e purificação final do ofertante ou iniciado era parte importante do ritual, conforme atrás foi referido acerca de Panóias, provavelmente com recurso a águas específicas e distintas.

Os altares rupestres rurais foram inicialmente consagrados a divindades do panteão indígena pré-romano pan-céltico (como Lug, no Noroeste) e a diversos genii loci específicos de certos rios, serras, rochedos e povoados. Depois, foram assimilados, pelo sincretismo religioso romano, aos deuses latinos, primeiro e, aos orientais, mais tarde. Posteriormente, o cristianismo primitivo combateu activamente estes cultos autóctones. No séc. VI, São Martinho, bispo de Braga, condenava veementemente, em Correctione Rusticorum, 8, os cultos e sacrifícios a «demónios» a que os «homens ignorantes dos campos» levantavam, ainda no seu tempo, altares onde lhes derramavam «sangue não só de animais, mas até de seres humanos» e que figuravam “como patronos, seja no mar, seja no rios, seja nas fontes, seja nas florestas”.

Embora o grau de preservação e a visibilidade seja diferente, a geologia das rochas, a morfologia das estruturas nelas vazadas e a forma da sua disposição são similares entre a Maceirinha e a Arcaçoila. Também análoga é a sua localização junto de pequenos cabeços destacados na paisagem envolvente, e em ambos os sítios se encontram pequenas pias e covinhas espalhadas por diversos afloramentos rochosos secundários num raio de até uma centena de metros. A conformação do relevo de ambos os locais proporciona também acústica adequada ao propagar de sons e vozes, aspecto que poderia ser importante no desenrolar de cerimónias. E se a Maceirinha está chegada ao povoado do Cerro do Telhado, que se avista a norte logo a seguir à fonte, a Arcaçoila tem como principais referentes paisagísticos do seu horizonte visual as elevações de perfil cónico, facilmente identificáveis, do Cerro do Castelo de Vale de Gaios e do mesmo Cerro do Telhado, respectivamente a nordeste e a poente.

Postas as semelhanças entre Maceirinha e Arcaçoila, vejam-se também as diferenças entre uma e outra rocha. Porque, se foram santuários rupestres do mesmo tipo, localizados muito próximos um do outro, e, possivelmente contemporâneos, deveria existir uma razão para essa duplicação e para a redundância daí resultante. Pela topografia do local, a rocha da Maceirinha presta-se melhor a ser contemplada de nascente para poente, na direcção do cabeço boleado mais alto onde existem outros afloramentos com pequenas cavidades rectangulares e pias. Já a rocha de Arcaçoila, situada no flanco leste do topo de outro pequeno cabeço boleado, presta-se a melhor visualização ao observador que se posicione orientado na direcção do nascente.

Assim, é possível que os santuários fossem utilizados de forma alternada em determinados dias ou em épocas distintas do ano: na Maceirinha poderiam realizar-se cerimónias relacionadas com o ocaso solar ou com o solstício de Inverno (ou equinócio de Outono), enquanto Arcaçoila parece ter sido mais dedicada ao nascer do sol e/ou ao solstício de Verão (ou equinócio de Primavera). Solstícios e equinócios eram as datas mais importantes no calendário anual das antigas sociedades agrárias. É igualmente imaginável que em tais dias especiais pudesse acontecer algum tipo de procissão entre uma e outra rocha.

Bibliografia:

ALFÖLDY, G. (2002) – Panóias: o santuário rupestre. In Loquuntur Saxa. Religiões da Lusitânia. Lisboa: Instituto Português de Museus, p. 211-214.

MACIEL, M. J. (2007) – Imagens de arquitecturas: Quadrata, Lacuus e Laciculi nos santuários rupestres do período romano em Portugal. Revistade História da Arte, 3, p. 24-39.

TRANOY, A. (2004) – Panóias ou les rochers des dieux. Conímbriga, 43, p. 85-97.

VAZ, J. I. (2002) – Tipologia dos santuários rupestres de tradição paleohispânica em território português. In Loquuntur Saxa. Religiões da Lusitânia. Lisboa: Instituto Português de Museus, p. 39-42.

VILHENA, J. & RODRIGUES, J. (2010) – A rocha insculpida de Maceirinha (Odemira). In Actas do 2.º Encontro de História do Alentejo Litoral. Sines: Centro Cultural Emmerico Nunes, p. 52-64.

VILHENA, J. (2014) – Acupunctura em Odemira: dois séculos de Arqueologia. In P. PRISTA (coord.), Ignorância e Esquecimento em Odemira. Odemira: Município de Odemira.

Jorge Vilhena

 

Fig. 1 - Localização de rocha-santuário de Maceirinha (seta negra) e do monte arruinado, em torno do qual existem mais afloramentos com pequenas cavidades artificiais (seta branca).

 

Fig. 2 - Elevação do cabeço da Arcaçoila. No acesso, o primeiro afloramento (assinalado por seta) tem covinhas insculpidas.

Fig. 3 - Conjunto da rocha insculpida da Maceirinha, vista de nascente.

 

Fig. 4 - Rocha insculpida da Maceirinha, vista de nascente, com cabeço do monte abandonado por trás, a poente.

Fig. 5 - Conjunto da rocha insculpida da Maceirinha, vista de norte.

 

Fig. 6 - Fotomontagem do conjunto rupestre de Maceirinha.

 

Fig. 7 - Aspecto geral da área de afloramento insculpido de Arcaçoila. Vista de oeste.

 

Fig. 8 - Aspecto geral da área de afloramento insculpido de Arcaçoila. Vista de leste.

Fig. 9 - Cavidades artificiais na rocha de Arcaçoila.

Fig. 10 - Área do tanque rectangular de Arcaçoila, semi-oculto pela vegetação e sedimentos.

 

Fig. 11 - Tanque rectangular de Arcaçoila, em primeiro plano, com rochas com cavidades menores por trás. Vista de oeste.

 

Fig. 12 - Vista de sul de rocha insculpida de Maceirinha (assinalada pela seta branca), com cumes gémeos da elevação do povoado de altura da Idade do Ferro de Cerro Telhado (setas negras).

 

Fig. 13 - Vistas de Arcaçoila para os povoados da Idade do Ferro de Cerro do Castelo de Vale de Gaios (em cima) e Cerro Telhado (em baixo)

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