Castelo da Senhora das Neves

Freguesia/Concelho: Relíquias e Colos (Odemira)

Localização: 37°44'30,5"N; 8°32'58"W (C.M.P. 1:25.000, Folha 545)

Cronologia: Alta Idade Média - Período islâmico

A Senhora das Neves é um santuário rural, situado no cume conspícuo do Cerro Queimado, próximo da aldeia de Ribeira do Seissal de Cima (a partir do qual o caminho para o sítio está sinalizado). Nesse alto, é facilmente identificável a grande distância a brancura da pequena ermida da Senhora das Neves, modesta reconstrução contemporânea de um edifício mais antigo. Já no seu interior, uma imagem de pedra com feição gótica tardia da senhora, possivelmente ainda medieval, constitui o elemento de maior valor histórico-artístico. O culto a Senhora das Neves na região é relativamente recente, provavelmente do século XVIII, mas está bem enraizado, com romaria a 5 de Agosto que atrai gente de dezenas de quilómetros em redor.

Num documento de 1752, a ermida era chamada de Nossa Senhora do Castelo, o que denuncia a memória toponímica da primeira utilização do Cerro Queimado: um povoado fortificado da Alta Idade Média. Desse castelo, apenas se vê actualmente a muralha que existe no flanco voltado a norte e ao vale da Ribeira do Seissal; no lado oposto, sobre escarpa rochosa a sul, a muralha nunca foi construída, ou dela não se conservam vestígios observáveis. A muralha, que em alguns ponto tem alçado com altura superior a 3 m, foi construída com blocos de média e grande dimensão de pedra local (xisto), com bandas de pedras dispostas em «espinha de peixe» nas fiadas superiores. Este opus spicatum é típico da construção defensiva da Alta Idade Média, sobretudo no período islâmico.

A muralha define uma pequena área de planta ovalada, no cume e parte superior da vertente setentrional da colina. Não é perceptível a existência de torres ou a localização da antiga porta de acesso ao interior do recinto fortificado. Actualmente, o ingresso no castelo faz-se por um caminho de terra batida que provocou um enorme rombo no pano de muralha, ainda mais alargado há poucos anos.

Nunca se realizaram escavações arqueológicas na Senhora das Neves. A cronologia do sítio é aferida sobretudo pela técnica construtiva da muralha. Um dos aspectos mais marcantes é a ausência de vestígios de telhas, o que pode significar que as eventuais construções na área interna da cerca amuralhada tinham coberturas de materiais perecíveis.

Numa bancada da escarpa rochosa da vertente sul do Cerro Queimado, a sueste da ermida, existe um tanque rectangular escavado na rocha, com canais para condução de água no rebordo, que se interpreta de funcionalidade religiosa: pode tratar-se de uma sepultura rupestre de pequenas dimensões, ou de um receptáculo ligado a cultos à água.

A singeleza das estruturas edificadas e a presença do santuário levam a pensar que se trata de uma cerca comunitária para refúgio ocasional das povoações do vale em tempos de necessidade, sítio de carácter apotropaico para a comunidade que terá conduzido à sua sacralização memorizada pelo santuário moderno.

Do alto da Senhora das Neves detém-se um vastíssimo panorama para poente, norte e nascente. O pôr-do-sol é belíssimo visto daqui, sobretudo se atendermos que nessa direcção se identifica no horizonte o grande Cerro do Castelo de Vale de Gaios, forte castelo da Alta Idade Média com que a povoação murada de Senhora das Neves certamente se relacionava.

Bibliografia:

QUARESMA, A. M.(1999) – Colos. Contributos para a sua história. Odemira: Município de Odemira.

VILHENA, J. (2014) – Acupunctura em Odemira: dois séculos de Arqueologia. In P. PRISTA (coord.), Ignorância e Esquecimento em Odemira. Odemira: Município de Odemira.

Jorge Vilhena

 

 Fig. 1 – Alto da Senhora das Neves (ou do Castelo), no Cerro Queimado, com a ermida (vista de noroeste). A muralha da Alta Idade Média corre pela base do plateau da ermida, desenvolvendo-se para o lado esquerdo (norte) da foto.

Fig. 2 – Pormenor da imagem gótica da Senhora das Neves

Fig. 3 – Aspecto da muralha alto-medieval com aparelho em «espinha-de-peixe» do Castelo da Senhora das Neves, com sector seccionado pela entrada actual no recinto, no flanco nordeste do castelo.

Fig. 4 – Tanque rupestre do Castelo da Senhora das Neves, em bancada na escarpa do flanco sueste da colina, em zona extra-muros.

Fig. 5 – Castelo da Senhora das Neves, no Cerro Queimado, vista de sul.

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